Sobre o caso da mulher que espancou um cachorro até a morte

dezembro 16, 2011

Não podemos condenar um indivíduo se não tivermos em vista a moral que acompanha nossos supostos julgamentos.

A velocidade que um caso isolado se espalha para uma parcela da sociedade brasileira (a que possui internet e participa de redes sociais) é realmente estrondosa. Assim como é a incapacidade de se fazer questionamentos e reflexões em frente ao turbilhão de notícias. É o caso de muita informação e pouco conhecimento. Nada é absorvido plenamente, beira apenas consumo vazio esse “saber” e o espalhar dos fatos. Tendo isso em vista (ainda que um assunto complexo para outro momento), deixo aqui um pequeno posicionamento objetivo como militante dos direitos e libertação dos animais.

O vídeo assusta pela frieza tanto de quem comete o ato, como de quem o filma sem ter reações ativas no momento. O que isso realmente significa? Que temos um caso de uma pessoa ignorante (e dezenas de outros adjetivos) cometendo uma atrocidade que condenamos? Sim e Não. Para quem tem esclarecido que a violência não justificada é um ato condenável e não se deve restringir essa premissa à espécie humana e sim colocá-la em questões éticas abrangentes à vida em geral, Sim. Foi um ato cruel. E Não, porque isso não é um caso, isso é uma repetição do que ocorre em outros lares e lugares (matadouros, circos e laboratórios) todos os dias. E essa repetição é aceitável? Logicamente a resposta seria NÃO.

Seria, pois as pessoas que enxergam a violência com um cachorro inaceitável, enxergam outra espécie com as mesmas características biológicas de sentir dor, medo, angústia, etc como… seres inanimados? sinceramente não tenho vontade nem de fazer esse caminho inverso do pensamento, por ora, vamos dizer que se trata ainda de uma controvérsia cultural e da continuidade do pensamento especista enraizado. O que importa em casos extremos que despertam interesse dos diferentes tipos de mídia e acabam sendo populares é a nossa posição ética vegana de não tratar atos como casos isolados e distantes do que se passa nos pratos desses que agora se dizem indignados. Claro, a história se repete, não nos enganemos que isso é novo e que isso acaba em seguida com resultados positivos. Esses casos podem servir para um simbolismo na busca de justiça aos nossos irmãos, mas não podem servir como condenação do fim em si mesmo.

Em outras palavras, a tal enfermeira, esposa de um médico, que espancou e asfixiou um yorkshire na frente de uma criança de aproximadamente três anos é condenável, assim como o é o que se passa por milhões de animais todos os dias, simples assim. Não acho correto a divulgação da vida inteira e de todos os dados dessa infeliz, pois tratar violência com (e tá na cara o que pode acontecer) com mais violência do mesmo tipo, essa que não tem um fundo ideológico questionador, ou seja, que acaba pela bárbarie sem reflexões posteriores é um erro que temos a chance de não levar para frente.

Não existem justificativas para nenhum caso cometido por um ser humano contra um animal que leve em conta somente os interesses do agressor (do experimentador ou do comedor, como preferir). Todos os animais têm direito à vida.

 
Uma das melhores explicações para o termo “especista”. Clique aqui.

Vida, Terra e Fogo

outubro 19, 2011
Walter Bond foi condenado na última quinta-feira (13 de outubro) a 87 meses de prisão por dois incêndios provocados em Utah. Esta nova sentença será somada ao seu tempo de condenação no Colorado. Isto dá a Walter um total de 12 anos de prisão por suas ações como o “Lobo Solitário” da Frente de Libertação Animal.

Não sei se estou errado, mas não consigo pensar em qualquer “movimento radical” que tenha partido do próprio ponto radical. Precisamos sempre lembrar que há formações e construções que podem ou não levar as pessoas à mudar seus  hábitos e/ou suas estratégias de ações para determinado fato. Se vez ou outra reparamos com atenção ao que podemos chamar de “controle das vozes”, onde uns ditam e outros precisam seguir, estaremos entendidos sobre o que é se indignar. Seguem as palavras de um lutador:

Declaração final no Tribunal:

“Estou aqui hoje pelos incêndios que cometi na Fábrica de Couro Tandy em Salt Lake City e no Restaurante Tiburon em Sandy, Utah, que vende o incrivelmente cruel foie gras. Os juízes dos EUA querem me dar à pena máxima e não apenas por causa dos meus “crimes”, mas porque não me arrependo e sou sincero. Minha intuição me diz que este tribunal não vai mostrar misericórdia comigo. Então, ao invés de mentir ao tribunal em uma débil tentativa de salvar a mim mesmo, como estou certo de que muitos fazem isso quando enfrentam seu dia de sentença, deixe-me dizer-lhe como me sinto.

Lamento que quando tinha 19 anos eu construí dois matadouros que continuam a matar animais, mesmo agora, enquanto eu falo. Lamento que Tandy Leather comercialize peles arrancadas de mortos, e muitas vezes com os corpos de animais, como vacas, avestruzes, coelhos, cobras e porcos. Lamento que os curtumes que abastecem a fábrica Tandy envenenem a Terra com produtos químicos perigosos.

Lamento que os lucros do restaurante Tiburon sejam obtidos a partir da alimentação forçada de gansos e patos até que seus fígados explodam para que as pessoas ricas possam usar isso como um patê para biscoitos e pão. Lamento que ganhe a vida com os cadáveres de animais selvagens e exóticos. Sinto que vivemos em uma época onde se pode estuprar uma criança ou bater brutalmente numa mulher até ela ficar inconsciente e receber menos tempo de prisão do que um ativista pela libertação animal que atacou a propriedade em vez de pessoas.

Lamento que o meu irmão estivesse tão desesperado para sair de uma dívida que voou desde Iowa para o Colorado apenas para me meter em uma conversa gravada e monitorada para obter o dinheiro da recompensa. Lamento estar relacionado biologicamente a um informante de pouco valor. Lamento ter esperado tanto tempo para se tornar um membro da Frente de Libertação Animal. Por todas estas coisas sempre terei algum pesar. Mas pelos incêndios na fábrica de couro e no restaurante Tiburon, não tenho nenhum remorso.

Estou ciente de que as leis da terra favorecem as empresas para que elas obtenham mais benefícios sobre a vida dos animais. Que elas também tendem a favorecer os proprietários brancos para que lucrem com a escravização de pessoas negras. Igualmente que elas são utilizadas para favorecer a capacidade dos maridos para atacar brutalmente suas esposas e agir sobre elas como se fossem um objeto. Aqueles que violaram a lei e danificaram a propriedade para se opor a opressão também eram chamados de “terroristas” e “fanáticos” em seu tempo, mas isso não muda o fato de que a sociedade avançou e continua avançando.

Então, hoje eu sou o cara mau. Esta é apenas uma questão de coincidência histórica. Quem sabe, talvez uma sociedade menos brutal e menos violenta se um dia existir entenderá que a Vida e a Terra são mais importantes que os produtos da morte e da crueldade. E se não, então para o inferno com tudo isso de qualquer maneira! Que os que me apóiam ou os meus críticos pensem que eu sou um lutador pela liberdade ou um louco com um galão de gasolina na mão não faz nenhuma diferença para mim. Passei anos comprováveis promovendo, apoiando e lutando pela libertação animal. Eu vi animais vítimas da injustiça humana, milhares deles com meus próprios olhos, e o que vi foi sangue, vísceras e sangue! Eu fiz uma promessa para os animais e a mim mesmo, lutar por eles de todas as formas que pudesse. Não me arrependo de nada disso, e nunca me arrependerei!

Podem tomar a minha liberdade, mas não podem ter a minha submissão.”

http://www.supportwalter.org/


O veganismo será relevante para os próximos 70 anos?

outubro 2, 2011

Segue um artigo traduzido do blog “Vegetarian Myth Myth“.

Quando Donald Watson, Sally Shrigley e 23 de seus amigos fundaram a “Vegan Society” em 1º de novembro de 1944, o mundo era um lugar muito diferente. Não foi por acaso que o veganismo, um termo cunhado por Watson, foi ganhando força durante os meses finais da Segunda Guerra Mundial. Com o pôr do sol sobre os velhos impérios marítimos, muitos europeus olharam para a devastação provocada pela guerra industrial e sabiam que tinha de haver uma outra maneira. Infelizmente, Roosevelt, Stalin e Churchill tinham outras ideias. Os políticos, industriais e aproveitadores dos lucros da guerra, classificaram que eles fizeram bem feito, pois perderam pouco tempo durante os anos de guerra para consolidar o poder. Enquanto os Estados Unidos e o Império Soviético se levantavam, anarquistas e a esquerda política fizeram o melhor para se recuperar da repressão dos anos de guerra. Visionários igualitários como Watson procuraram maneiras pioneiras de viver,  que poderiam deixar a violência da guerra e o abatimento no passado. Então, por que não nós?

A história dos boicotes estratégicos é longa, e nos anos que antecederam o nascimento da Vegan Society de Donald Watson, já tinham sido utilizadas em diversos graus de sucesso. Desde o boicote da “Liga Nacional Negra”  dos bens produzidos por trabalho escravo em 1830 a Gandhi durante a luta pela independência da Índia,  para o boicote Judeu organizado contra a Ford, por seus laços com o Terceiro Reich, havia amplo e suficiente precedente histórico para sugerir que a negação coordenada de apoio econômico popular poderia resultar em pelo menos um grau de reforma sistêmica.

Muito mudou entre os anos  de 1944 a 2011. Enquanto o veganismo como um simples boicote pode ter parecido uma estratégia suficiente há 67 anos em um mercado pré-global, não podemos hoje mais esperar para comprar o nosso caminho para a revolução. Ultimamente, os esforços de ações que não atacam as causas da exploração sistêmica resultarão na recuperação do veganismo pelo poder institucional. Como discutimos em um post anterior, o capitalismo global depende de uma margem cada vez maior de maximização do lucro através da extração de recursos. Mesmo se formos suficientemente ingênuos para acreditar que podemos minimizar os efeitos desta extração através da reforma dos seus aspectos mais brutais, a lógica capitalista sempre procura uma maior taxa de eficiência de extração. O unico equilíbrio  procurado por este sistema é a de um planeta morto em que todos os recursos tenham sido explorados até o ponto de inutilidade. Isso é incompatível com a ética do veganismo, e como tal, qualquer vegano sério precisa ser tão sério sobre a organização contra o capitalismo global como eles são pelo boicote da carne e produtos lácteos.

Uma visita a feirinha ou empório de comidas naturais do seu bairro mostra como até mesmo um ethos  (a ética) como o veganismo pode ser transformado em uma divisão de classe. Pagando grandes corporações para transformar a sociedade para nós não é uma estratégia política viável. Quando nos envolvemos com o veganismo exclusivamente como consumidores, estamos sendo presas e caindo nos mesmos truques de marketing que legitimam a carne humana (sic): a de que um estilo de vida sem culpa custa apenas alguns dólares extras por semana. Esta falta de estratégia garante que o veganismo terá uma morte tranquila em um gueto subcultural  de classe média de nossa própria criação. A devastação ecológica e o assassinato da biodiversidade provocada por plantações de soja é como o capitalismo industrial interpreta o veganismo. Se o veganismo não é anti-capitalista, então é inútil, exceto talvez, para nos deixar testemunhar uma extinção em massa em câmera lenta.

Nada disso quer dizer que o aspecto boicote produzido pelo veganismo carece de relevância, somente que não podemos esperar para fazer o progresso social envolvendo-se na ética do veganismo apenas como consumidores. Boicotes têm sido usados ​​no passado como poderosas ferramentas de organização. Eles são demonstrações de força, incorporados com solidariedade, disciplina e unidade. Eles são luzes para outros que se importam mas sentem-se impotentes ou isolados. Estamos aqui, estamos equilibrados  e cada pessoa que vem com a gente adiciona para a inércia histórica de nosso movimento.

O boicote só pode ser o nosso primeiro passo como um movimento, mas não é o único que fizemos em 70 anos.  A “Hunt Saboteurs Association”, a “Band of Mercy”, a “Animal Liberation Front”, as Ligas Libertárias, “SHAC e todas as Ligas de Defesa Animal representam avanços estratégicos na luta pela libertação animal. Concordando ou não com qualquer tática especial utilizada por esses grupos, é importante estudar suas histórias. Se você é alguém para quem o veganismo é um ato político, então é a sua história. Para que este movimento mantenha relevância para outros 70 anos, precisamos ser destemidos de sua evolução a partir da reação anticapitalista como ferramenta de organização para uma fundação social pós-capitalista.


Valores nos corpos

setembro 29, 2011

Toda organização política exerce um controle público sobre o corpo privado. A prisão e a impressão digital são bons exemplos. Expressões como “corpo místico”, “corpo da armada”, “corpo da lei”, “corporação profissional” o demonstram bem. A luta de classes e a hierarquia das funções fazem também da política uma metáfora do corpo. Os corpos tornam-se uma nova mercadoria a se consumir em todas as suas formas – a higiene, a maquilagem, a vestimenta, os esportes da moda. (…) Assim, o corpo não é apenas uma mercadoria, mas um capital que se deve fazer frutificar, seja pelo trabalho ou pela institucionalização das férias. (…) O corpo é um índice da classe a que se pertence, da mesma forma que a habitação e o automóvel. Essa separação persiste mesmo após a morte, na maneira como são tratados os corpos nos funerais.¹

Podemos expandir muito mais essa visão fazendo uso de filosofias, contrapondo-se uma as outras, a noção física, biológica, as ligações com o ambiente ou as questões de pertencimento à esse, também a noção do equilíbrio de forças ou ainda, o instrumento do pecado pela noção judaico-cristã. Mas mantendo-se no foco da prerrogativa do “corpo negócio”, tão sentida em nossa sociedade do lucro, do rendimento, da produção em nome da perpetuação do mesmo sistema, da propaganda, da competição, entre outras coisas, tem-se a noção de como essa condição nos provoca desvarios, cria delírios e fortemente molda inconscientes, que se não tratados a tempo jamais dissociarão a imagem construída do que de fato, pode-se representar o corpo: um local de troca, fraternidade, nudez, contato, encontro, discussões, fonte de emoções e sentimentos.

Uma das maneiras de desvencilharmos do que nos colocam como um caminho seguro para nos mantermos sem o desprazer da dor em vários níveis de percepção, ou seja, fazer uso das drogas farmacêuticas, é antes de tudo, eliminar o pensamento que esse é um caminho seguro. Pois não há propaganda que consiga superar um pensamento sóbrio e focado nos próprios fatos: As drogas farmacêuticas e os tratamentos tradicionais de ‘cura’ não curam o corpo como um todo, mas o vicia, o torna dependente quimicamente ou de atividades psíquicas não voluntárias, entre outras situações. O próximo movimento é conhecer como cuidar desse corpo longe da ótica dominante da medicina moderna, ou a ‘medicina’ do lucro.

Os entendimentos sobre saúde e a própria definição dessa palavra podem passar por diferentes sentidos em mais variadas culturas, mas nunca dissociado do ato de manter-se são, que trará consigo alguns níveis de percepção para o mesmo. Mas a visão dominante e a que deve ser combatida é a da ‘qualidade de vida’, engendrada pelos gestores capitalistas. Para esses, ter qualidade é possuir uma rotina, fazer movimentos repetitivos e programar um pequeno periodo com uma organização e horarios semelhantes, mas em outro cenário. Em outras palavras, férias. Supõe-se que saúde é ter um horário de descanso e entretenimento, normalmente em frente à um televisor, com um automóvel x conduzindo no caminho, as vestimentas adequadas, as horas e o poder de compra e outros poderes que acabam ligando ou acorrentando um modo de vida ao trabalho, o qual responde às necessidades criadas para obter a ‘qualidade total’.

Nesse ponto enxergamos presente um outro elo que a saúde e seus decorrentes terrenos de significações expõem, como é o caso de inserir um modelo do que é ter uma boa saúde, uma boa vida. E nada se desliga ao fato de produzirmos o capital para isso, portanto, é possível deduzir que a saúde depende do trabalho, e esse cria suas bases de funcionamento através do lucro, não de éticas, como todos sabem. Em outras palavras, a saúde se liga a exploração de outros homens e de animais. Mais uma vez, criam-se abismos maiores, “Os brasileiros pobres que estudam e trabalham são verdadeiros heróis. Submetem-se a uma jornada de até 16 horas diárias, oito de trabalho, quatro de estudo e outras quatro de deslocamento. Isso é mais do que os operários no século XIX.” ² O sistema de qualidade de vida é vendido e propagandeado para todos, e assim como outros produtos da burguesia: você tem de pagar para ficar enquadrado. Isso levará, como vimos, a outras consequencias, assim como se aceitarmos um ‘veganismo de mercado’. Ou seja, aceitar que nos digam que a solução à exploração animal estará em prateleiras, dentro do mesmo sistema, dentro dos mesmos padrões de trabalho, dentro da continuidade da exploração humana, dentro das mesmas propagandas falsas.

animais torturados em nome da saúde

Exijamos de nós mesmos uma consciência que trate o corpo e a saúde não como matérias vendáveis e próprios instrumentos do lucro. Exijamos um maior cuidado com a vida. Maior vivência, maiores verdades, maiores contatos e descobertas, longe do que nos oprime.

¹Paulo Freire, (trechos selecionados)  de “Soma – A Alma é o Corpo”. ²Márcio Pochmann do link.


Do costume de comer carne

agosto 16, 2011
Até que ponto poderíamos crer na expressão: “eu não me importo com eles (animais)”, quando damos conta que tivemos uma história de costumes voltadas para um afastamento e ocultamento dos próprios constrangimentos do “se importar”? Está implícita a contradição. O indivíduo bombardeado por tantas regras e reprimido pelas esferas sociais, toma para si o “não se importar” com outros seres como uma resposta firme de que tem um controle sobre o que lhe cai. Digo que o veganismo é uma quebra de uma atmosfera individualista e claro, especista. Não é a busca de prazeres imediatos, é a busca de um prazer maior: desconstruir o “natural”, atacar as coisas como elas são, apostar em algo novo.

O artigo que segue são fragmentos retirados do livro “O Processo Civilizador”, de Norbert Elias, e nos dá uma ideia de como produzimos mudanças psíquicas que alteram nossa vida social e moldam comportamentos.

“Fica claro que a mudança do comportamento à mesa é parte de uma transformação muito extensa por que passam sentimentos e atitudes humanas. Também se vê em que grau as forças motivadoras desse fenômeno se originam na estrutura social, na maneira em que as pessoas estão ligadas entre si. Vemos com mais clareza como círculos relativamente pequenos iniciam o movimento e como o processo, aos poucos, se transmite a segmentos maiores. Esta difusão, porém, pressupõe contatos muito específicos e, por conseguinte, uma estrutura bem definida da sociedade. Além do mais, ela certamente não poderia ter ocorrido se não houvessem sido estabelecidas para classes mais amplas, e não apenas para os círculos que criaram o modelo, condições de vida – ou, em outras palavras, uma situação social – que tornassem possível e necessária uma transformação gradual das emoções e do comportamento, um avanço no patamar do embaraço.

(…). A mudança como a carne era servida mudou consideravelmente da Idade Média até a época atual. É das mais instrutivas a curva dessa mudança. Na classe alta medieval, o animal morto ou grandes partes do mesmo eram trazidas inteiras para a mesa. Não só peixes e aves inteiras (às vezes, com as penas) mas também coelhos, cordeiros e quartos de veado aparecem na mesa, para não mencionar pedaços maiores de carne de caça, porcos e bois assados no espeto.

O animal é trinchado à mesa. Este o motivo por que os livros sobre boas maneiras repetem, até o século XVII e, às vezes, até no século XVIII, que é importante que o homem educado saiba trinchar bem.

(…) O trincho e a distribuição de carne são honras especiais. A tarefa cabe em especial ao dono da casa ou a hóspedes ilustres, a quem ele solicita que realize o trabalho. “Os jovens e os de classe inferior não devem interferir no ato de servir, mas apenas aceitar o que lhes foi entregue na sua vez”, diz a Civilité Française anônima, de 1714.

cozinha idade média
O fato de desaparecer gradualmente o costume de colocar na mesa grandes pedaços de animal para serem trinchados liga-se a muitos fatores. (…) Neste caso, também, a tendência psicológica acompanha um processo social mais amplo: hoje causaria repugnância a muitas pessoas se elas ou outras tivessem que trinchar meio novilho ou um porco à mesa ou cortar a carne de um faisão ainda adornado com suas penas. (…) Esta direção é bem clara. A partir de um padrão de sentimentos segundo o qual a vista e trincho de um animal morto à mesa eram coisas realmente agradáveis, ou pelo menos não desagradáveis, o desenvolvimento levou a outro padrão pelo qual a lembrança de que o prato de carne tem algo a ver com o sacrifício do animal é evitada a todo custo. Em muitos de nossos pratos de carne, a forma do animal é tão disfarçada e alterada pela arte de sua preparação e trincho que quando a comemos quase não nos lembramos de sua origem.

Será mostrado que as pessoas, no curso do processo civilizatório, procuram suprimir em si mesmas todas as características que julgam “animais”. De igual maneira, suprimem essas características em seus alimentos.


O ato de trinchar, conforme demonstram os exemplos, outrora constituiu parte importante da vida social da classe alta. Depois, o espetáculo passou a ser julgado crescentemente repugnante. O trincho em si não desaparece, uma vez que o animal, claro, tem que ser cortado antes de ser comido. O repugnante, porém, é removido para o fundo da vida social. Especialistas cuidam disso no açougue ou na cozinha. Repetidamente iremos ver como é característico de todo o processo que chamamos de civilização esse movimento de segregação, este ocultamento para “longe da vista” daquilo que se tornou repugnante. A curva que ocorre do trincho de grande parte do animal ou do animal inteiro, passando pelo avanço do patamar da repugnância à vista dos animais mortos, para a transferencia do trincho a enclaves especializados por trás das cenas, constitui uma típica curva civilizadora.”


Palestra sobre Veganismo

julho 31, 2011

“Palestra inspiradora de Gary Yourofsky, na íntegra, sobre direitos animais e veganismo, realizada na Universidade Georgia Tech, nos EUA, no verão de 2010. Ouça a esse sensacional palestrante que vai desmitificar mitos,inundar sua mente com fatos interessantes e ajudá-lo a fazer escolhas éticas para ter um coração e uma alma mais saudáveis . Seu estilo carismático de discurso é único e tem de ser visto por qualquer um que se preocupe com animais ou que deseje transformar o mundo um lugar melhor.” – Descrição no Youtube.

Eu assisti ontem e achei excelente. Algumas ressalvas em opiniões pessoais, como o caso dos produtos industrializados mostrados como opções aos sabores. Talvez eu não bateria tanto nessa tecla por perceber que se baseássemos o veganismo pelo ‘encontro de gostos semelhantes’ da carne e queijo não suportaria questões mais profundas. Em todo o caso, isso foi levado mais para a vivência em seu país (EUA) e entendo a posição, que não deixa de ser importante. Altamente recomendado para veganos e não veganos [principalmente].

site oficial de Gary


Os nós da rede

julho 11, 2011
Segue uma pequena análise histórica e uma tentativa de percepção de um momento presente à respeito de movimentos culturais de esquerda surgidos no campo da internet, desembocados no Brasil.

A burguesia de hoje é dependente da classe média em ascensão, ou a que busca essa elevação como o sentido para vida, ou ainda a que faz com que esses desejos sejam expostos em ostentações para cuidar primeiramente dessa nova e necessária aparência ou o sustentáculo considerado essencial para dar o primeiro impulso à gangorra. Mas para o efeito ser mais concreto ou para colaborar com os anteriores, essa classe faz as alianças com a burguesia para dar conta do status quo e esses, não podem mais julgá-los de um lugar distante. Sim, é preciso aproximar-se de quem está subindo, e para isso não há grandes problemas em entrar, ou estar constantemente, em transformações. Isso se chama agradar o parceiro e/ou cliente.


Em outras épocas, a aristocracia já precisou mudar seus valores ou transformá-los quando perceberam estar dependentes de uma classe inferior que seriam seus aliados ou os substituiram nos negócios e na decorrente formação de novos valores.

“O padrão de controle das inclinações, do que deve e não deve ser controlado, regulado e transformado, certamente não é o mesmo neste estágio do que no precedente, da aristocracia de corte. Conforme os diferentes tipos de interdependência, a sociedade burguesa aplica restrições mais fortes a certos impulsos, ao passo que certas restrições, que eram aristocráticas, são transformadas para se adaptarem à nova situação.” (ELIAS, Norbert) Aqui temos o exemplo do advento da grande industrialização e as consequentes mudanças de paradigmas e relações entre as pessoas. Os burgueses usam elementos das tradições para não suscitar duvidas à subordinados que eles são os novos escolhidos, e importante, ainda escolhidos por Deus, mesmo que esse deus tenha acabado de ser transformado para os novos interesses de dominantes.

Porém, palácios isolados e exibições pré programadas não serão mais tão frequentes, pois as fábricas vão exigir olhar mais próximo aos trabalhadores, se comparados à situação anterior. E os trabalhadores então, se veem obrigados à uma completa e nova perspectiva de conviver todo o tempo com o olhar dos companheiros.

Mas falamos do presente momento em que a internet insere novos hábitos, novas velocidades e maneiras de enxergar o que o outrem representa. Também já se concentra como um estímulo para além das dicotomias do que é e do que pode ser o indivíduo: se mostra um campo de relacionamentos políticos que quase são desempenhados de forma imediata, considerando as convocações especificamentes das redes sociais. Se o acesso vem crescendo (não à passos largos, é verdade. E também não somente à internet sendo referida aqui, mas no campo social brasileiro) oportunidades para o capitalismo desempenhar a criação de novos desejos vem junto. Não que tudo seja dessa forma, pois continuam existindo “desejos” básicos sem grandes “influencias externas” dos humanos, como o de não viver sem o mínimo de estrutura social, moradia e alimentação. Mas outra classe, bem menos miserável e que por vezes descartam que ainda existam classes sociais, diga-se de passagem, mantém e fazem crescer hábitos que já estiveram periféricos e agora passam por uma contemplação mais atenta da sociedade e do Estado, (o caso da maconha e sua marcha) mesmo que sem coragem (ainda) de posicionamentos claramente à favor pelos governantes.


Será essa imensidão de informações de nossos dias a alavanca para mudanças radicais, ou será que tanta ignorância de distinção dos fatos também produzidos pelas mídias deixaram a massa incapaz de uma organização verdadeira? Digo verdadeira no sentido de não se inserir dentro do esperado por quem está em situação dominante e a espera de novos parceiros que somente perpetuarão os negócios, ou por assim dizer, a situação favorável às tradições burguesas.


As confusas percepções, os anseios de pertencimento e as tentativas de ser ouvido, geram sem duvidas mudanças nos costumes. Mas são mudanças absorvidas, que não saem de uma fronteira para um “outro mundo”. Pois esse outro mundo não é feito por imediatismos desprovidos de estudos e políticas combativas estruturadas e pensadas para destruição do que já temos aí.

Ao que parece, mais e mais pessoas se cansam, mas ainda estão ausentes posicionamentos claros do que precisa ser feito. Se o momento e as “armas” são propicias à revoluções, então o esforço será em como tratá-lo para conseguirmos alguma eficácia. A ausencia de bases políticas  é o motor para infelizes criarem piadas que lhe agradam o ego enquanto injeta-se  um ar de festa. Estamos fazendo tudo igual (com as transformações esperadas, calculadas) ou essa explosão é um verdadeiro passo à qualquer coisa que nos leve longe da ‘marcha da mesmice histórica’?


Mais um caso de exploração

junho 15, 2011

A Produção de Plumas

Você já se perguntou alguma vez como são obtidas as plumas que enchem edredons, casacos, almofadas?

Para as plumas serem conseguidas gansos e patos passam por um processo cruel, onde suas penas são arrancadas à força a cada seis semanas. Isso acontece desde a sua décima semana de vida até completarem quatro anos, para depois serem mortos por sua carne. Patos e gansos que vivem livres têm uma expectativa de vida de 12 a 15 anos.

Percebemos que nesse tipo de produção, além de todas as cicatrizes abertas nos animais, a dor, o medo e a vida toda servindo como um escravo para que se venda um produto, a situação dos trabalhadores humanos também não são nem um pouco dignas. As coisas acontecem mesmo com as cortinas fechadas. A submissão animal e humana está à serviço de um sistema que só investe em suas fachadas de lojas e as pessoas preferem acreditar nessa grande ilusão.


R.I.P – Zé Claudio & Maria do Espírito Santo da Silva

maio 24, 2011
Descansem em paz!

“É um desastre para quem vive do extrativismo como eu, que sou castanheiro desde os 7 anos de idade, vivo da floresta, protejo ela de todo o jeito. Por isso, eu vivo com a bala na cabeça à qualquer hora. Porque eu vou pra cima, eu denuncio os madeireiros, os carvoeiros, e por isso eles acham que eu não posso existir. A mesma coisa que fizeram no Acre, com o Chico Mendes, querem fazer comigo. A mesma coisa que fizeramcom a Irmã Dorothy, querem fazer comigo. Eu posso estar hoje aqui, conversando com vocês, daqui um mês vocês podem saber a notícia que eu desapareci. Me pergunto: Tenho medo? Tenho. Sou ser humano, tenho medo. Mas o meu medo não empata de eu ficar calado, enquanto eu tiver força para andar, eu estarei denunciando todos aqueles que prejudicam a floresta.”

Ele e sua esposa viviam da colheita de castanhas da floresta, em assentamentos de extrativismo sustentável. Ambos lideravam a associação de camponeses da região, e já haviam recebido diversas ameaças de morte dos madeireiros, sem nunca terem obtido proteção policial.  - link noticia - 

Como é dificil ter que encarar a realidade da ditadura dos interesses econômicos. Nos matamos e matamos nosso meio ambiente, é isso.

“Tudo em nome do “se dar bem”. Tudo em nome do “ah, eu sou o empresário fulano de tal”; “eu exportei 100m3 de madeira pros Estados Unidos, pro Japão, não sei pra onde”; “eu tive um lucro de tanto esse ano”. Às custas da floresta, de algo que ele não plantou, de algo que ele não gastou um centavo para fazer.“  Zé Claudio

Assista a palestra dele no ano passado. Vale muito a pena.
[link entrevista]



Bio? Diesel – o prefixo não pode estar associado.

maio 6, 2011

Trechos retirados do livro “Navios que se cruzam na calada da noite”  - Luc Vankrunkelsven

“Num mundo com 855 milhões de famintos (a cada ano este número aumenta 5 milhoes, apesar dos ‘benefícios’ da agricultura industrial com suas sementes híbridas ou transgêncicas), é extraordinário observar que a AF (agricultura familiar), (…) agora iria alimentar os motores a diesel dos caminhões Mercedes. Neste mundo capitalista há uma guerra entre o estômago e o automóvel. Está claro quem irá vencer!

Neste mundo tão faminto (só no Brasil, são 44 milhões dos 180 milhões de brasileiros), é uma vergonha que 65% da produção mundial de soja e 90% do farelo de soja sejam destinados à ração para animais. E agora a safra agrícola seria destinada, também, aos caminhões. O carro particular e o consumo (excessivo) de carne são os símbolos máximos do capitalismo e da riqueza para uma parte da sociedade. (…) É bastante assustadora a perspectiva de que o agricultor familiar – que usa tração animal do boi ou do cavalo – produzirá soja para os consumidores de carne na Europa, Japão e China… e agora também para os caminhões que transportam o grosso da produção da ‘agricultura de exportação’ dos latifundiários para o porto de Paranaguá. Para um jogo cínico como esse, precisaríamos de um planeta com o triplo de tamanho da Terra. Nós nos aborrecemos com o fato de que a maior parte das proteínas é destinada à ração animal e que dificilmente poderemos utilizar todo óleo extraído em nossa margarina ou nos óleos comestíveis. Biodiesel é a ‘saída ecológica’ para utilizar este óleo. Para aplacar nossa consciencia e ganhar duas vezes mais dinheiro.

Biodiesel é um componente lógico de um sistema que foi imposto ao Brasil desde as décadas de 50 e 60: o desmonte da rede ferroviária e a construção de estradas para os caminhões e ônibus da Mercedes e Volkswagen (= fonte de riquezas para a Alemanha após a II Guerra Mundial) e, atualmente, também para outras, como Volvo, Scania, etc. (…) Plantar soja para biodiesel – sem uma análise criteriosa – é aceitar e promover a continuidade do avanço da fronteira agrícola. Em 2002, constatou-se que o desmatamento da floresta amazônica aumentou 25 mil km². ‘Normalmente’ este aumento é de ‘somente’ 18 mil km² por ano. O cerrado (25% da área do Brasil) e, nos ultimos anos, também os campos, no Paraná e Santa Catarina, foram ocupados pela soja. Nestes locais, a biodiversidade está desaparecendo muito rapidamente.

A ‘burguesia industrial’ afirma agora que o biodiesel é o combustível do futuro! “Nós temos, nas grandes cidades, problemas com poluição do ar e agora vocês, queridos agricultores, finalmente terão uma importante missão social. Vocês colaborarão na melhoria das cidades”. (…) Ouço a mesma conversa na Europa. Agora vamos cultivar espécies para fins não-alimentícios: biodiesel, plástico, materiais de construção, etc. Mas os problemas ecológicos somente são transferidos da cidade para o campo. Na Europa, os agricultores estão usando mais agrotóxicos para suas beterrabas, colza, … para produção de biodiesel ou plástico, pois não se destinam mesmo à alimentação. É para fins não-alimentícios! O carrosel industrial de Monsanto e seus colegas pode continuar a girar. Até deixar todos tontos.

(…) Para produzir uma tonelada de adubo químico é necessário utilizar mais de uma tonelada de petróleo (ou seu equivalente em energia nuclear ou outra fonte). No Brasil, desde a década de 50: centrais hidrelétricas. É um sistema global de modo de vida desperdiçador e de modelo de produção industrial. Há conflitos agrários com povos indígenas e agricultores (Itaipu e muitas outras hidrelétricas). Sim, é uma ‘pegada’ ecológica e social! Shell e outras multinacionais do petróleo vendem diesel e todo tipo de derivados, adubos químicos e agrotóxicos de todos os tipos e agora; agora vão produzir biodiesel. Eles jogam, com entusiasmo, o jogo ecológico. Falam de ‘energia verde’. Muitas vezes o balanço energético, o resultado do output-input (saída – entrada), é negativo… Olha só que loucura: produzir ‘petróleo’ nas lavouras (‘bio’diesel) com petróleo extraído da terra?! Somente o deus Lucro poderia inventar uma coisa dessas.”

Links Luc: 01, 02, 03. O livro pode ser encotrado em qualquer biblioteca dos colégios públicos do Estado do Paraná.

Que isso não seja confundido com um post apenas de “briga de informações tecnológicas”, haja visto várias páginas de discussão pela internet. Isso aqui é para demonstrar o absurdo de se pensar na continuidade de um mundo com tamanha disparidade e desperdícios em nome do capital. Dinheiro esse que dá forças aos indivíduos decidirem ficar cegos para tudo que está próximo, tirando seu próprio umbigo.  A verdade é que isso tudo é uma guerra e a unica maneira de vencer é  destruindo todo o sistema que dá base à ganância em detrimento de quaisquer outras coisas positivas. Nós somos os infectados querendo achar uma cura e passá-la aos cegos, para que um dia, juntos, consigamos tirar o lucro da pole position ante as pessoas e a terra como um todo.


1º de Maio

maio 1, 2011

Hoje não é dia de sorteio de brindes, de bandeirinhas com siglas de partidos ao ar, nem de comemorar nenhuma festa. 1º de maio é a lembrança de uma luta em 1886 dos proletários em Chicago que pediam a diminuição da jornada de trabalho para 8 horas e foram massacrados pela polícia.

É dia de lembrar que todos os direitos conquistados, como esse de ter tempo para ler textos na internet, foram conquistados somente por organizações de pessoas e com muito trabalho, não por governos e/ou empresas. Nada se deve àqueles que estão em salas fechadas. Todo o poder deveria ser para os que vivem e buscam dignidade, mas não é nada assim.

Portanto, 1º de Maio é dia de luta, um momento para a memória jamais ser abalada, porque todos os dias são de luta para quem tem consciencia dos desafios de se buscar um mundo justo. As corporações se esforçam para esconder, maquiar as opressões ao trabalhador e trabalhadora e ao meio ambiente, buscam por todos os meios nos convencer de que precisa-se pagar um preço por tudo, por qualquer direito básico. As mãos cansadas e as mentes imersas em propagandismos muitas vezes mal conseguem interpretar um fato simples à nossas vidas: Trabalho é tortura, podem procurar na raiz da palavra.

Não nos enganemos, pois cumprir horários, produzir sempre mais do que o suficiente para ti e ganhar/gastar em moeda o que alimentará a escravidão de outros é uma invenção moderna e feita por poucos, que ainda estão controlando esse ciclo e esse pensamento ridículo de nossa época.

Enquanto o trabalho como o conhecemos hoje não for abolido e pensado de outra forma, em que seja realmente respeitado e não sirva a propósitos para denegrir outros, ou seja, enquanto não tivermos uma paz social, esse não será um dia de comemoração.


Uma história de luta

abril 28, 2011

Barry Horne – Libertacionista Animal.

1952 - 2001

 ”A luta não é para nós, nem para os nossos desejos e necessidades pessoais. É para cada animal que tenha alguma vez sofrido e morrido nos laboratórios de vivisseção, e para cada animal que vai sofrer e morrer nesses mesmos laboratórios a menos que nós terminemos com esse negócio diabólico agora. As almas dos mortos torturados clamam por justiça, o grito da vida é pela liberdade. Nós podemos criar essa justiça e nós podemos entregar essa liberdade. Os animais não têm ninguém, apenas nós. Nós não vamos desapontá-los.”

“É sempre mais fácil ver as razões pelas quais não podemos ser bem-sucedidos, sempre mais fácil balançar os ombros e acreditar que o melhor que podemos fazer é tentar, quase que como uma ação de consolo. Sem acreditar no sucesso, o sucesso se torna difícil de ser alcançado, quase uma impossibilidade. Assim como a libertação animal na verdade, [que dizem ser] um conceito impossível. No entanto, sabemos que não é, ou senão pelo que estamos lutando? Nunca devemos temer o sucesso das nossas ações ou deixar de acreditar nele. E nunca devemos temer querer alcançar as estrelas, se isso for preciso. [...] como poderíamos pedir por menos? Fazer isso é condenar tantos animais a uma vida de sofrimento e morte. Acredite em mim, é chegada a hora de alcançar aquelas estrelas e acreditar que isso é possível.”

links:

Barry Horne, Biografia Completa [ótima]


Quem é quem?

abril 23, 2011

Quem é civilizado?

O que mecanicamente faz a terra produzir alimentos, abarrotando os seus armazéns e depois explora a fome do infeliz, ou o selvagem que divide entre os seus o alimento colhido?
O que politicamente dividiu a terra em continentes, países, estados, cidades, e se mata pela posse dos mesmos, ou o selvagem que jamais estendeu um pedaço de arame farpado? (…)

Luiz Ribeiro Castro de Carvalho

Há de não esquecer que pisamos sobre um solo que não nos quer aqui; não dessa maneira. A cada instante de vida, há a morte caminhando ao lado e tomando o espaço. A ‘civilização’ não pode ser em sua cabeça o egoísmo do ‘ainda não aconteceu comigo’. Sentar no sofá e relaxar não pode ser sinônimo de conforto; não enquanto não eliminarmos o ódio, a fome e as torturas impostas ao seus amigos ou aos amigos dos seus amigos, ou seja, aos terráqueos que estão ao seu lado. Não sei o que vai nos convencer de buscar verdadeiramente uma outra vida, (será quando visualizarmos o fim de tudo?) mas já sei que se batermos nessa tecla será um passo. Não esqueça: Esse mundo não está dando certo e não temos dois planetas para ir para o plano b.


Um olhar panorâmico para as justiças

abril 12, 2011

A Ruckus Society é uma organização com objetivos práticos de treinamento para ações diretas. Eles possuem campos bases espalhados pelos EUA para oferecer além de grupos de estudos, ensinamentos estratégicos para ações diretas nas ruas e florestas. Entre outras coisas, nessa entrevista foi falado sobre maneiras de agir sob uma dimensão impossível de separar:  justiça social e direitos dos animais e ambientais. O que segue são alguns trechos que fiz questão de sublinhar no livro e agora deixo aqui no blog.

florestas para nosso futuro!

“Você realmente não tem como separar os direitos humanos e a justiça social do meio ambiente. Um planeta saudável é o primeiro direito do homem e o primeiro direito do planeta é ser deixado em paz pela porra do homem. Queremos tentar fazer as pessoas entenderem que ação direta é uma ferramente valiosa – senão a mais valiosa – em nossa caixa de ferramentas. Mas é preciso reconhecer que ela não é uma estratégia por si só, é uma tática que pode se encaixar em uma estrutura estratégica e tem que ser entendida como tal.”

“(…) Mas paralelamente a isso havia uma evolução natural e um entendimento de que temos que trabalhar juntos. Metalúrgicos e tibetanos, ativistas pelos direitos animais, hippies e anarquistas, todos precisam perceber que estamos trabalhando com um objetivo em comum. Podemos ter visões diferentes de como ele se concretiza, mas basicamente estamos tentando reverter a tomada de poder das corporações sobre nosso planeta. Estamos vendo um mundo que vai realmente conseguir se sustentar.”

“(…) Elas (as pessoas) se sentem desafiadas a fazerem coisas que não sabiam que podiam fazer. E garantimos que elas consigam – na verdade, elas garantem que elas mesmas consigam. Há um certo poder ao ver as pessoas vencerem obstáculos. É um pouco piegas (…), mas as pessoas vão embora transformadas pela experiência de vencer desafios e confiar em seus amigos – talvez amigos que tenham feito naquela manhã – confiando em suas ferramentas e vendo que não é mágica, que todos nós podemos fazer isso, que todos nós podemos retomar o poder e atirar nossos corpos dentro do maquinário e desativar a máquina se for preciso.

(…) E, algo muito importante, temos que demonstar que não estamos apenas lutando contra as coisas. Não estamos tentando apenas banir as coisas, ou tentando acabar com isso ou aquilo. Também estamos falando sobre começar e construir coisas. O que queremos é realmente pragmático, não é um castelo de vento. Só estamos dizendo que queremos fazer as cidades habitáveis. Queremos recuperar rios e riachos. Queremos proteger a diversidade biológica. Queremos priorizar a educação e a assistência médica ao invés de encarcerar as pessoas.”

“Nos anos 80 em especial, havia muito ambientalismo DIY que colocava a culpa no consumidor, como a reciclagem. É claro que esse tipo de coisa é importante, mas na verdade ninguém tinha permissão para olhar para os paradigmas subjacentes como a cultura consumista, que originalmente criou tanto lixo. As pessoas são forçadas a fazer isso agora porque é absolutamente esmagador tentar lidar com a luta no Tibet, com o trabalho semiescravo, com rios envenenados, esgoto tóxico em comunidades étnicas, lixo nuclear em terra indígena, o constante militarismo, iraquianos morrendo sob um embargo ridículo e racismo global. Há muita coisa acontecendo! Então as pessoas olham para o capitalismo porque é o paradigma econômico sobre o qual tanto dessa opressão se baseia.”

Não vamos parar até que vocês parem!

“Eu acho que se utilizarmos nossa cobertura na mídia mainstream como índice de sucesso ou fracasso, então estamos perdidos. (…) A grande questão é, eu acredito que é possível? Eu acho que não temos escolha. Ou revertemos essa porra de tomada corporativa e reavemos a democracia, ou vamos todos perecer por isso. Isso soa tão cínico, mas há esperança implícita nisso, porque quando as pessoas entenderem o quão desesperadora é a situação, eles vão acordar antes que seja tarde demais.”

As palavras sao de Han Shan, diretor de programa da Ruckus Society, e está no livro “Não devemos nada a voce”, original “We owe you nothing”, de Daniel Sinker (Punk Planet).


Alguma coisa de futuro

março 30, 2011

Num momento ou em outro, o presente deixará de ser a nossa certeza. Não está lúcido, mas está em todas as pessoas que o futuro não é apenas um luxo. Ele faz parte como o seu café da manhã de hoje, você o quer por perto, e você caminha para conquistá-lo, simplesmente porque não podemos nos permitir cravar uma estaca em nosso próprio pé. Assim é como pensamos o futuro, querendo ou não. O problema é quando isso não se reflete em pensamentos inteligentes e claros sobre o que podemos fazer hoje. Há de se conquistar uma revolução interna, mas se colocar como protagonista externo dessas ações. A motivação vem de pensar que cada indivíduo busca alguma coisa de futuro, em diferentes níveis, em diferentes condições, mas a busca não cessa. E é por isso que há trabalho à ser feito.

- Olhe – disse Roany -, não é carne bovina. É de búfalo. Aqui ninguém come carne bovina. Aliás, o que a gente come não tem nada a ver com o movimento que você e Shy estão fazendo.

– Tem tudo a ver. Os criadores de gado subvencionados a essas suas vacas que são uns balões de gás que destroem a propriedade pública, o habitat ribeirinho, arrancam plantas raras, pisoteiam as margens dos córregos, produzem gás metano que destrói o ozônio, devastam os Parques Nacionais que pertencem ao povo, a todos nós, é isso o que fazem essas vacas nojentas, idiotas e poluidoras que destroem o mundo, e para quê? Ridículos três por cento do produto estadual bruto. Para que uns poucos possam viver como se vivia no século XIX – ele se deteve meio desesperado. Ter que explicar aquilo ali. Baixou os olhos.

(…)

- Quero voltar atrás – disse ele. Sua voz estava inflada de paixão profissional. – Quero que tudo volte a ser como antes, que todas as cercas e todas as vacas desapareçam. Quero que os capins e as flores silvestres nativas tornem a brotar. Quero águas claras correndo nos riachos secos, os mananciais voltando a fluir e os grandes rios vazando com força. Quero que o lençol freático seja recuperado. Quero que os antílopes e os alces e os bisões e os carneiros selvagens e os lobos recuperem seu território. Quero que os criadores de gado, os operários, fabricantes e distribuidores da industria da carne caiam de cabeça no inferno.

Wade Walls, protagonista dos trechos, é um personagem fictício de um conto chamado “Os Governadores de Wyoming”, do livro “Curto Alcance”, escrito por Annie Proulx, a mesma autora de “ O Segredo de Brokeback Mountain”. Achei curioso ver como alguns personagens no meio de um cenário, à primeira vista, “previsível” acabam tendo reações alternativas ao modelo de vida que lá se concentram. O Estado de Wyoming, nos EUA, é uma “terra de ranchos de caubóis, planícies e montanhas castigadas pelo vento, poeira, chuva e neve, de estação para estação”. Nos lugares inóspitos trabalhados pela autora, o convívio cru e forte entre as poucas pessoas que há na vista dos olhos promove comportamentos que “vão do sobrenatural ao francamente cômico, do quase heróico ao patético”, revelando o que há de mais interior nas pessoas, como essa vontade de transformar e de parar com o que não faz sentido. Para mim, é essa a lição.


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