O desagrado do oculto: veganismo e a quebra de grossas paredes.

29 de abril de 2012
(Este texto busca ser introdutório à questões amplas da prática vegana. Já foi publicado na versão impressa do apatia humana e de um zine independente.  Pequenas alterações foram feitas)

Está tudo servido à mesa, outra vez você vai sentar-se, pegar os talheres e começar a cerimônia que se repete tradicionalmente. As coisas parecem terem sido montadas de uma forma difícil de haver confusões: É preciso alimentar-se e ali está a comida, certo?

Bem, nada está como está por acaso. Existe um processo sempre em movimento ao qual chamamos de costumes e de civilização. Em vários momentos da história, algum sujeito se levantou da mesa, e estando curioso, nervoso ou confuso, começou a questionar alguma prática vivida naquele momento para os presentes. Não só isso, mas uma série de fatores num momento ou outro (podemos incluir desastres naturais, guerras, colapsos da economia, pestes) se misturaram aos hábitos e aos pensamentos que constroem o que existe à disposição hoje nas vastas e plurais mesas. O “Veganismo”, termo surgido há 70 anos, faz parte de um processo questionador de nossos costumes e das relações entre animais humanos e não humanos.

Destrinchar um animal inteiro em cima da mesa já foi um costume da alta burguesia europeia, o anfitrião mostrava suas habilidades aos convidados, que assistiam e aplaudiam a ação. Não durou muito tempo e essa cena começou a ser feita exclusivamente por empregados na cozinha, separada da sala, preparada para novas cerimônias.  A carne que hoje se compra no mercado dentro de uma embalagem de isopor branca ou fechada à vácuo com plásticos transparentes sem rastos de sangue é considerada, pelo senso comum, uma evolução nos costumes. Mas todos esses modos atuais, inversamente proporcionais na relação entre crueldade e exposição, onde todo o trajeto para os produtos chegarem aos que usufruem está oculto, e o que é revelado é apenas um pacote ornamentado por profissionais de outra área,  (leia-se: manipulação estratégica com fim determinista econômicos) não podem esconder ou ainda eliminar a  capacidade humana de questionar e exercer escolhas baseadas em princípios éticos filosóficos.

Está implícito em cada produto alimentício um caminho percorrido: o trato com a terra, as mãos que trabalham, o salário e as condições das mesmas, o transporte, os desperdícios e as relações exercidas entre esses fatores. Não há neutralidade em nossas escolhas, não há fuga da política se pensamos em nos manter alimentados e vivos. Escolher diminuir o sofrimento animal, tendo em vista a abolição dessa escravidão imposta aos seres que possuem características semelhantes às nossas em sentir dor, medo, angústia, fome e frio é a base da dieta vegana. Essa escolha não fica limitada aos animais, pois se insere em toda relação dita anteriormente. As orientações e posições tomadas não são desassociadas da lógica que procura encontrar uma ética em outros campos. Se você já se questionou de onde vem sua comida ou porquê você se alimenta do que se alimenta, procure se informar. É possível escolher pelo não sofrimento, e isso é o mínimo que podemos fazer.


Do costume de comer carne

16 de agosto de 2011
Até que ponto poderíamos crer na expressão: “eu não me importo com eles (animais)”, quando damos conta que tivemos uma história de costumes voltadas para um afastamento e ocultamento dos próprios constrangimentos do “se importar”? Está implícita a contradição. O indivíduo bombardeado por tantas regras e reprimido pelas esferas sociais, toma para si o “não se importar” com outros seres como uma resposta firme de que tem um controle sobre o que lhe cai. Digo que o veganismo é uma quebra de uma atmosfera individualista e claro, especista. Não é a busca de prazeres imediatos, é a busca de um prazer maior: desconstruir o “natural”, atacar as coisas como elas são, apostar em algo novo.

O artigo que segue são fragmentos retirados do livro “O Processo Civilizador”, de Norbert Elias, e nos dá uma ideia de como produzimos mudanças psíquicas que alteram nossa vida social e moldam comportamentos.

“Fica claro que a mudança do comportamento à mesa é parte de uma transformação muito extensa por que passam sentimentos e atitudes humanas. Também se vê em que grau as forças motivadoras desse fenômeno se originam na estrutura social, na maneira em que as pessoas estão ligadas entre si. Vemos com mais clareza como círculos relativamente pequenos iniciam o movimento e como o processo, aos poucos, se transmite a segmentos maiores. Esta difusão, porém, pressupõe contatos muito específicos e, por conseguinte, uma estrutura bem definida da sociedade. Além do mais, ela certamente não poderia ter ocorrido se não houvessem sido estabelecidas para classes mais amplas, e não apenas para os círculos que criaram o modelo, condições de vida – ou, em outras palavras, uma situação social – que tornassem possível e necessária uma transformação gradual das emoções e do comportamento, um avanço no patamar do embaraço.

(…). A mudança como a carne era servida mudou consideravelmente da Idade Média até a época atual. É das mais instrutivas a curva dessa mudança. Na classe alta medieval, o animal morto ou grandes partes do mesmo eram trazidas inteiras para a mesa. Não só peixes e aves inteiras (às vezes, com as penas) mas também coelhos, cordeiros e quartos de veado aparecem na mesa, para não mencionar pedaços maiores de carne de caça, porcos e bois assados no espeto.

O animal é trinchado à mesa. Este o motivo por que os livros sobre boas maneiras repetem, até o século XVII e, às vezes, até no século XVIII, que é importante que o homem educado saiba trinchar bem.

(…) O trincho e a distribuição de carne são honras especiais. A tarefa cabe em especial ao dono da casa ou a hóspedes ilustres, a quem ele solicita que realize o trabalho. “Os jovens e os de classe inferior não devem interferir no ato de servir, mas apenas aceitar o que lhes foi entregue na sua vez”, diz a Civilité Française anônima, de 1714.

cozinha idade média
O fato de desaparecer gradualmente o costume de colocar na mesa grandes pedaços de animal para serem trinchados liga-se a muitos fatores. (…) Neste caso, também, a tendência psicológica acompanha um processo social mais amplo: hoje causaria repugnância a muitas pessoas se elas ou outras tivessem que trinchar meio novilho ou um porco à mesa ou cortar a carne de um faisão ainda adornado com suas penas. (…) Esta direção é bem clara. A partir de um padrão de sentimentos segundo o qual a vista e trincho de um animal morto à mesa eram coisas realmente agradáveis, ou pelo menos não desagradáveis, o desenvolvimento levou a outro padrão pelo qual a lembrança de que o prato de carne tem algo a ver com o sacrifício do animal é evitada a todo custo. Em muitos de nossos pratos de carne, a forma do animal é tão disfarçada e alterada pela arte de sua preparação e trincho que quando a comemos quase não nos lembramos de sua origem.

Será mostrado que as pessoas, no curso do processo civilizatório, procuram suprimir em si mesmas todas as características que julgam “animais”. De igual maneira, suprimem essas características em seus alimentos.


O ato de trinchar, conforme demonstram os exemplos, outrora constituiu parte importante da vida social da classe alta. Depois, o espetáculo passou a ser julgado crescentemente repugnante. O trincho em si não desaparece, uma vez que o animal, claro, tem que ser cortado antes de ser comido. O repugnante, porém, é removido para o fundo da vida social. Especialistas cuidam disso no açougue ou na cozinha. Repetidamente iremos ver como é característico de todo o processo que chamamos de civilização esse movimento de segregação, este ocultamento para “longe da vista” daquilo que se tornou repugnante. A curva que ocorre do trincho de grande parte do animal ou do animal inteiro, passando pelo avanço do patamar da repugnância à vista dos animais mortos, para a transferencia do trincho a enclaves especializados por trás das cenas, constitui uma típica curva civilizadora.”


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