Para quem as águas caem?

8 de março de 2013

Chove. Há Silêncio

Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego…

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece…

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente…

Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”

Não há muito tempo atrás, mais precisamente em 1999, a classe governante da Bolívia permitiu a privatização de um bem comum conhecido de todos nós: a água. O controle da água exercido por uma empresa transnacional gerou um aumento nas contas de até 300% antes mesmo de qualquer obra de acobertamento e maquiagem da situação deplorável (ou, como as empresas chamam: “obras de ampliações e melhorias dos serviços”). O contrato, não através de linhas claras, mas respaldado pelo controle e poder garantido a partir de então, praticava termos em que proibia xs moradorxs até de coletarem água da chuva para próprio proveito. (O vídeo de animação acima, provavelmente traduz muito melhor as palavras. Assista)

Essa não foi a primeira experiência boliviana com privatização. Em 1545, uma montanha de prata sustentou escandalosamente todos os domínios da Coroa Espanhola por quase três séculos. Os casarões e nobres salões que abrigaram as festas de maiores farturas e abundâncias dos colonizadores de tempos atrás, ainda estão presentes para contrastar com a memória dos oito milhões de indígenas mortos pela escravidão e tantos outros cegados pela luz do sol ao voltarem à superfície após seis meses de imersão nas cavernas de Potosí.

A natureza como fonte de recursos para objetivos imperiais é uma prática antiga, conhecida por todxs que olham com um pouco de atenção à história ocidental de “conquistas”, onde o status quo vai ditando e mostrando com elegância quais as boas coisas nisso de explorar de forma violenta os bens que possuímos. “Bens que possuímos? Assim mesmo, no plural?” Pois bem, eis aqui a grande batalha de realismo literário da educação burguesa: Nós, humanos, ainda falamos no plural quando pensamos em um bem que é necessário à própria sobrevivência, pois visualizamos no próximo a mesma necessidade. Logo, usar nessa expressão o “nós”, tem um fundamento básico, o do reconhecimento que não somos isolados dos semelhantes. A noção especista não permite que os semelhantes sejam também os animais, todos os animais. A noção racista não permite que sejam todas as cores de pessoas e a noção machista não permite que sejam todos os gêneros. Percebe o sentido e a extensão da batalha pelo plural?

potosi

A concessão do contrato na Bolívia seria de 40 anos, mas acabou em 5 meses devido à uma guerra declarada do povo à empresa e ao governo. Para os bolivianos, o exemplo de luta árdua, mas de reversão da ordem ditatorial imposta, trouxe um aprendizado importante. Formas associativas de lutas sociais com direção e organização locais, alicerçadas em práticas de assembleias, consultas populares e transparência, permitiram a vitória nesse episódio e despertou uma mobilização mais constante da população para outros problemas1.

No Brasil e no mundo, temos inúmeras empresas que colocam a água numa garrafa e vendem. Nós pagamos e pensamos que temos uma comodidade nas mãos. Esquecemos outras possibilidades de distribuição, outras possibilidades de acesso, de tratamento e de qualidade. Nós apenas compramos. Sim, nós temos sede. Eles sabem disso e estão expandindo seus negócios. Eles vieram também de muito longe e faz um bom tempo, mas agora as coisas caminharam para além da especificidade dos venenos viciantes que produziam anteriormente; agora, a água está estabelecida como mais um ramo dos negócios da Coca Cola e da Nestlé. Eu nem preciso falar que eles não usam o plural para falar sobre um elemento essencial à vida, porém é provável que você encontre o contrário nos comerciais de televisão.

“Eles” não são parte de nós. O negócio deles é complicar a luta pelo plural, é aumentar o controle educacional propagandístico em que precisamos estar submetidos aos seus produtos para “viver melhor” ou de acordo com os padrões de saúde estabelecidos pelas próprias empresas em aliança com esferas mantenedoras do modo de vida burguesa. Além disso, aos poucos, como era de se esperar, essas duas empresas estão aumentando suas participações no “ramo da água”2

A Nestlé, que já foi na Europa acusada formalmente em associações ligadas à industria de alimentos por “má conduta”, coisas que incluem marketing agressivo de alimentos para bebês, quebra de sindicatos, destruição ambiental e exploração de fornecedores, é além de tudo, a responsável direta por simplesmente implantar a retórica de que leite materno não é suficiente para formação de seres humanos; leite de vaca industrializado e misturado com pós e papinhas patenteadas resolvem tudo3.

No caso da água, a empresa conseguiu passar por cima de resoluções federais, como o impedimento da “desmineralização”, onde agora é inserido sais minerais de suas patentes e também, fazer o bombeamento das fontes em ritmos mais acelerados que o permitido na Constituição, porém com licença governamental desde 2004. Os impactos ainda são incalculáveis para a região de São Lourenço, em Minas Gerais, mas sabe-se que dois grandes poços já secaram e que o lençol subterrâneo traduz os prejuízos com sinais de afundamento de superfícies.

minas-potosi-transporte

Estima-se que “entre 1503 e 1660, desembarcaram no porto de Sevilha 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata. A prata levada para a Espanha em pouco mais de um século e meio excedia três vezes o total das reservas europeias. E essas cifras não incluem o contrabando”4. A coroa espanhola, no entanto, possuía um falso monopólio na extração das montanhas bolivianas. O esbanjamento da aristocracia, (há, por exemplo, registros de duques que sustentavam nada menos que 700 criados) aliado à falta e por vezes a proibição de investimento industrial, fez com que a Espanha se tornasse dependente economicamente de outros países europeus e criou nessa mesma época uma enorme disparidade social na sua população. De toda forma, o grande fator que envolve toda a configuração dos problemas do país nos séculos XVI a XVIII, onde viu-se sua população ser reduzida pela metade, foi justamente onde mais investiu-se com as riquezas além-mar: as guerras santas. Quer dizer, as montanhas que ainda hoje abrigam trabalhadores que arranham suas paredes com as unhas em busca de estanho, um mineral considerado veneno e rejeitado séculos antes, foram as grandes patrocinadoras das maiores perseguições religiosas que o mundo já vivenciou. À contragosto, a Bolívia impulsionou e contribuiu para o desenvolvimento de toda a Europa. As maiores preciosidades do mundo, eventualmente se transformam em miséria e geram grandes guerras.

Um reservatório subterrâneo de água, conhecido como Aquífero Guarani e localizado no centro sul do Brasil e em países vizinhos, possui uma área equivalente aproximadamente aos territórios da Inglaterra, França e Espanha juntas. Mas, deixando de lado o passado ou, superando toda a história de controle exercido por Estados nacionais, temos agora uma companhia privada na jogada: Ela é chamada de “Coca Cola” e, ao que parece, está comprando terras estrategicamente localizadas nessa formação para extrair prata e levar em navios clandestinos para terras distantes e patrocinar novas guerras5.

Na próxima vez que cair água dos céus, pergunte a si mesmx se é mais umx que lamenta a aguaria, ou se a chuva lhe dá coragem para se molhar. Não precisamos fazer jogos de previsões com os gráficos coloridos, basta olhar o horizonte e preparar-se para o que vem por aí.

igreja afundada

1 Um caso importante e recente a ser citado na perspectiva de vitórias populares no país é a descriminalização reconhecida internacionalmente da folha de coca – elemento considerado sagrado, medicinal e alimentício pelos nativos desde tempos ancestrais e criminalizado há 50 anos atrás pelos países desenvolvidos. Durante esse período, políticas neoliberais tentaram implantar produtos industrializados como “alternativa” usando a folha, numa tentativa de forjar um nicho de mercado que não obteve sucesso, pois implicaria em chamar o produtor como narcotraficante e o consumidor como dependente químico. A reação e as exigências recentes em frente ao governo fez com que o assunto entrasse em pauta na ONU para votação em janeiro de 2013. Dos 184 países, apenas 15 se opuseram – entre eles, EUA. Vale lembrar que para produzir a Coca Cola, nunca houve oposição alguma.

2 Parece ser uma coisa besta, mas é justamente nesses pequenos detalhes inseridos em nossa linguagem que, de tão corriqueiros, transformam grandes absurdos em algo completamente aceitável e ainda digno de repetição sem maiores questionamentos por nós mesmxs. A água não é um bem vendável (ou não deveria ser), não deveria existir esse “ramo de negócio”, deveria existir uma cooperação para fazermos uso do bem. Mesmo a água encanada e controlada pelo Estado é encarada como um serviço prestado, ou seja, você paga por todo o tratamento, rede de esgotos, funcionários, impostos diversos, eventuais serviços e o papel do boleto. A regulação desse preço vem da quantidade consumida. Não é uma defesa desse modelo, mas é chamar atenção ao fato que nem mesmo o Estado consegue deixar tão explícito a noção da água ser um produto como outros quaisquer.

3 Há de se considerar que leite materno, independente da espécie, está em suas qualidades intimamente ligado à saúde feminina. Logo, uma promoção verdadeira do significado vital da amamentação, só pode ser pensado dentro de uma amplitude que considere as condições gerais de vida de uma sociedade, cenário que não é nem de perto produzido pela empresa. A inserção de produtos industrializados que auxiliariam a formação básica de seres humanos – investimento que se deu principalmente em países Africanos, onde o leite em pó foi apresentado com imagens de mulheres enfermeiras nas embalagens, conferindo-lhes status técnico-científico – não passou de propaganda enganosa já na sua essência, considerando as condições precárias de vida das populações, agravadas justamente pelos subempregos e pela exploração ambiental, onde, não para a nossa surpresa, o pó era misturado com (adivinhe!) água contaminada. Também é preciso lembrar que aos olhos da maioria da população, veganxs estão fora de si por não beberem leite de um ser que não é nossa mãe, ou seja, a noção estapafúrdia está bem viva.

4 “As veias abertas da América Latina” – Eduardo Galeano.

5 Leia de novo! Ok, você é espertx e entendeu direitinho. Em caso de dúvida: hoje grandes corporações (a citada foi apenas um exemplo) patrocinam guerras que se desenvolvem a partir de slogans como “libertação à oprimidxs”, entre outros não tão diferentes dos usados por cavaleiros espanhóis no eterno “pecaminoso” oriente. As guerras ainda são levadas por um exército nacional e ainda matam e fazem sofrer fisicamente outros seres como nos velhos tempos, porém possuem hoje uma estratégia atualizada frente aos antigos romanos. A atualização se chama propaganda. Ela minimiza a percepção do dominado e pode ser bem doce e resfrescante.

 


O desagrado do oculto: veganismo e a quebra de grossas paredes.

29 de abril de 2012
(Este texto busca ser introdutório à questões amplas da prática vegana. Já foi publicado na versão impressa do apatia humana e de um zine independente.  Pequenas alterações foram feitas)

Está tudo servido à mesa, outra vez você vai sentar-se, pegar os talheres e começar a cerimônia que se repete tradicionalmente. As coisas parecem terem sido montadas de uma forma difícil de haver confusões: É preciso alimentar-se e ali está a comida, certo?

Bem, nada está como está por acaso. Existe um processo sempre em movimento ao qual chamamos de costumes e de civilização. Em vários momentos da história, algum sujeito se levantou da mesa, e estando curioso, nervoso ou confuso, começou a questionar alguma prática vivida naquele momento para os presentes. Não só isso, mas uma série de fatores num momento ou outro (podemos incluir desastres naturais, guerras, colapsos da economia, pestes) se misturaram aos hábitos e aos pensamentos que constroem o que existe à disposição hoje nas vastas e plurais mesas. O “Veganismo”, termo surgido há 70 anos, faz parte de um processo questionador de nossos costumes e das relações entre animais humanos e não humanos.

Destrinchar um animal inteiro em cima da mesa já foi um costume da alta burguesia europeia, o anfitrião mostrava suas habilidades aos convidados, que assistiam e aplaudiam a ação. Não durou muito tempo e essa cena começou a ser feita exclusivamente por empregados na cozinha, separada da sala, preparada para novas cerimônias.  A carne que hoje se compra no mercado dentro de uma embalagem de isopor branca ou fechada à vácuo com plásticos transparentes sem rastos de sangue é considerada, pelo senso comum, uma evolução nos costumes. Mas todos esses modos atuais, inversamente proporcionais na relação entre crueldade e exposição, onde todo o trajeto para os produtos chegarem aos que usufruem está oculto, e o que é revelado é apenas um pacote ornamentado por profissionais de outra área,  (leia-se: manipulação estratégica com fim determinista econômicos) não podem esconder ou ainda eliminar a  capacidade humana de questionar e exercer escolhas baseadas em princípios éticos filosóficos.

Está implícito em cada produto alimentício um caminho percorrido: o trato com a terra, as mãos que trabalham, o salário e as condições das mesmas, o transporte, os desperdícios e as relações exercidas entre esses fatores. Não há neutralidade em nossas escolhas, não há fuga da política se pensamos em nos manter alimentados e vivos. Escolher diminuir o sofrimento animal, tendo em vista a abolição dessa escravidão imposta aos seres que possuem características semelhantes às nossas em sentir dor, medo, angústia, fome e frio é a base da dieta vegana. Essa escolha não fica limitada aos animais, pois se insere em toda relação dita anteriormente. As orientações e posições tomadas não são desassociadas da lógica que procura encontrar uma ética em outros campos. Se você já se questionou de onde vem sua comida ou porquê você se alimenta do que se alimenta, procure se informar. É possível escolher pelo não sofrimento, e isso é o mínimo que podemos fazer.


O veganismo será relevante para os próximos 70 anos?

2 de outubro de 2011

Segue um artigo traduzido do blog “Vegetarian Myth Myth“.

Quando Donald Watson, Sally Shrigley e 23 de seus amigos fundaram a “Vegan Society” em 1º de novembro de 1944, o mundo era um lugar muito diferente. Não foi por acaso que o veganismo, um termo cunhado por Watson, foi ganhando força durante os meses finais da Segunda Guerra Mundial. Com o pôr do sol sobre os velhos impérios marítimos, muitos europeus olharam para a devastação provocada pela guerra industrial e sabiam que tinha de haver uma outra maneira. Infelizmente, Roosevelt, Stalin e Churchill tinham outras ideias. Os políticos, industriais e aproveitadores dos lucros da guerra, classificaram que eles fizeram bem feito, pois perderam pouco tempo durante os anos de guerra para consolidar o poder. Enquanto os Estados Unidos e o Império Soviético se levantavam, anarquistas e a esquerda política fizeram o melhor para se recuperar da repressão dos anos de guerra. Visionários igualitários como Watson procuraram maneiras pioneiras de viver,  que poderiam deixar a violência da guerra e o abatimento no passado. Então, por que não nós?

A história dos boicotes estratégicos é longa, e nos anos que antecederam o nascimento da Vegan Society de Donald Watson, já tinham sido utilizadas em diversos graus de sucesso. Desde o boicote da “Liga Nacional Negra”  dos bens produzidos por trabalho escravo em 1830 a Gandhi durante a luta pela independência da Índia,  para o boicote Judeu organizado contra a Ford, por seus laços com o Terceiro Reich, havia amplo e suficiente precedente histórico para sugerir que a negação coordenada de apoio econômico popular poderia resultar em pelo menos um grau de reforma sistêmica.

Muito mudou entre os anos  de 1944 a 2011. Enquanto o veganismo como um simples boicote pode ter parecido uma estratégia suficiente há 67 anos em um mercado pré-global, não podemos hoje mais esperar para comprar o nosso caminho para a revolução. Ultimamente, os esforços de ações que não atacam as causas da exploração sistêmica resultarão na recuperação do veganismo pelo poder institucional. Como discutimos em um post anterior, o capitalismo global depende de uma margem cada vez maior de maximização do lucro através da extração de recursos. Mesmo se formos suficientemente ingênuos para acreditar que podemos minimizar os efeitos desta extração através da reforma dos seus aspectos mais brutais, a lógica capitalista sempre procura uma maior taxa de eficiência de extração. O unico equilíbrio  procurado por este sistema é a de um planeta morto em que todos os recursos tenham sido explorados até o ponto de inutilidade. Isso é incompatível com a ética do veganismo, e como tal, qualquer vegano sério precisa ser tão sério sobre a organização contra o capitalismo global como eles são pelo boicote da carne e produtos lácteos.

Uma visita a feirinha ou empório de comidas naturais do seu bairro mostra como até mesmo um ethos  (a ética) como o veganismo pode ser transformado em uma divisão de classe. Pagando grandes corporações para transformar a sociedade para nós não é uma estratégia política viável. Quando nos envolvemos com o veganismo exclusivamente como consumidores, estamos sendo presas e caindo nos mesmos truques de marketing que legitimam a carne humana (sic): a de que um estilo de vida sem culpa custa apenas alguns dólares extras por semana. Esta falta de estratégia garante que o veganismo terá uma morte tranquila em um gueto subcultural  de classe média de nossa própria criação. A devastação ecológica e o assassinato da biodiversidade provocada por plantações de soja é como o capitalismo industrial interpreta o veganismo. Se o veganismo não é anti-capitalista, então é inútil, exceto talvez, para nos deixar testemunhar uma extinção em massa em câmera lenta.

Nada disso quer dizer que o aspecto boicote produzido pelo veganismo carece de relevância, somente que não podemos esperar para fazer o progresso social envolvendo-se na ética do veganismo apenas como consumidores. Boicotes têm sido usados ​​no passado como poderosas ferramentas de organização. Eles são demonstrações de força, incorporados com solidariedade, disciplina e unidade. Eles são luzes para outros que se importam mas sentem-se impotentes ou isolados. Estamos aqui, estamos equilibrados  e cada pessoa que vem com a gente adiciona para a inércia histórica de nosso movimento.

O boicote só pode ser o nosso primeiro passo como um movimento, mas não é o único que fizemos em 70 anos.  A “Hunt Saboteurs Association”, a “Band of Mercy”, a “Animal Liberation Front”, as Ligas Libertárias, “SHAC e todas as Ligas de Defesa Animal representam avanços estratégicos na luta pela libertação animal. Concordando ou não com qualquer tática especial utilizada por esses grupos, é importante estudar suas histórias. Se você é alguém para quem o veganismo é um ato político, então é a sua história. Para que este movimento mantenha relevância para outros 70 anos, precisamos ser destemidos de sua evolução a partir da reação anticapitalista como ferramenta de organização para uma fundação social pós-capitalista.


1º de Maio

1 de maio de 2011

Hoje não é dia de sorteio de brindes, de bandeirinhas com siglas de partidos ao ar, nem de comemorar nenhuma festa. 1º de maio é a lembrança de uma luta em 1886 dos proletários em Chicago que pediam a diminuição da jornada de trabalho para 8 horas e foram massacrados pela polícia.

É dia de lembrar que todos os direitos conquistados, como esse de ter tempo para ler textos na internet, foram conquistados somente por organizações de pessoas e com muito trabalho, não por governos e/ou empresas. Nada se deve àqueles que estão em salas fechadas. Todo o poder deveria ser para os que vivem e buscam dignidade, mas não é nada assim.

Portanto, 1º de Maio é dia de luta, um momento para a memória jamais ser abalada, porque todos os dias são de luta para quem tem consciencia dos desafios de se buscar um mundo justo. As corporações se esforçam para esconder, maquiar as opressões ao trabalhador e trabalhadora e ao meio ambiente, buscam por todos os meios nos convencer de que precisa-se pagar um preço por tudo, por qualquer direito básico. As mãos cansadas e as mentes imersas em propagandismos muitas vezes mal conseguem interpretar um fato simples à nossas vidas: Trabalho é tortura, podem procurar na raiz da palavra.

Não nos enganemos, pois cumprir horários, produzir sempre mais do que o suficiente para ti e ganhar/gastar em moeda o que alimentará a escravidão de outros é uma invenção moderna e feita por poucos, que ainda estão controlando esse ciclo e esse pensamento ridículo de nossa época.

Enquanto o trabalho como o conhecemos hoje não for abolido e pensado de outra forma, em que seja realmente respeitado e não sirva a propósitos para denegrir outros, ou seja, enquanto não tivermos uma paz social, esse não será um dia de comemoração.


As Escravidões

7 de dezembro de 2009

O post de hoje tem um cunho histórico e é dedicado à reflexões sobre a amplitude da palavra “escravidão”.

O texto a seguir foi retirado do livro “1808 – Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil”, de Laurentino Gomes.

“O maior entreposto negreiro das Américas sumiu do mapa sem deixar vestígios, como se jamais tivesse existido. Sua localização é ignorada nos mapas de ruas e guias turísticos. Situada entre os bairros da Gamboa, da Saúde e da Santo Cristo, a antiga Rua do Valongo até mudou de nome. Hoje chama-se Rua do Camerino. Ao final dela, em direção à Praia Mauá, uma ladeira chamada Morro do Valongo, sem nenhuma placa, monumento ou explicação, é a única referência geográfica que restou. É como se a cidade, de alguma forma, tentasse esquecer o velho mercado negreiro e a mancha que ele representa na história do Brasil.”

“(…) Quando a corte portuguesa chegou ao Brasil, navios negreiros vindos da costa da África despejavam no Mercado do Valongo entre 18000 e 22000 homens, mulheres e crianaças por ano. Permaneciam em quarentena, para serem engordados e tratados das doenças. Quando adquiriam uma aparência mais saudável, eram comercializados da mesma maneira que hoje boiadeiros e pecuaristas negociam animais de corte no interior do Brasil. A diferença é que, em 1808, a ‘mercadoria’ destinava-se a alimentar as minas de ouro e diamante, os engenhos de cana-de-açúcar e as lavouras de algodão, café, tabaco e outras culturas que sustentavam a economia brasileira.”


Esconderemos um dia os vestígios de nossos abatedouros?

O mundo sofreu profundas mudanças no ultimo século da escravidão negra e o ponto crucial para a libertação dos escravos para mim foi o capital. A Inglaterra, em plena revolução industrial queria um novo mercado consumidor e os negros no Brasil foram um alvo. Acreditando que seriam futuros trabalhadores assalariados, exigiu-se o fim da escravidão.

Se houveram pessoas que lutaram contra a escravidão por motivos, digamos,  mais nobres? Sim, e muitas. Elas é que merecem o mérito da mudança, mas procuro lembrar mais uma vez de não cortarmos as ligações entre a(s) ética(s) e o sistema capitalista, no que diz respeito à pensar o veganismo. Digo isso, porque enxergo o veganismo como uma das relações de lutas que existem em nosso mundo, ele não é separado de outras. Se pensarmos nele separadamente, poderemos conquistar uma vitória, mas uma vitória que nos levará a outra derrota talvez ainda maior. Não há vitímas a serem escolhidas, há vítimas prontas para serem usadas.

post por Vinícius.


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