A anormalidade pelo bem da conclusão

5 de setembro de 2015
Reflexão acerca do tombamento de um caminhão que transportava porcos para o abate.

Você sabe porque um protesto de rua violento é sempre mais eficaz que uma caminhada pacífica? Porque o inusitado, o medo, a insegurança, a sensação de perda de senso civilizado ocidental ou o olhar para qualquer destruição aguça nossos sentidos de urgência e nos tira de um estado morno de vida. Uma vidraça grossa de um banco quebrando não passa despercebido. O expectador pode não concordar, mas já é tarde demais pra seguir seus passos como se nada tivesse ocorrido.

Um caminhão cheio de porcos tomba no caminho da morte escondida para morrer e sofrer diante das câmeras. Pronto, estamos diante da violência. Os bancos no Brasil tem lucros recordes na história e nós podemos supor como se enche o bolso dos banqueiros, não? Depender de um sistema que lhe rouba a todo segundo e concentra seus ganhos na mão de alguns poucos é o que temos de mais violento, mas é mantido em paredes largas de proteção ideológica entrelaçada ao mesmo sistema que a mantém e força seus dependentes a reforçarem os tijolos todo o tempo. Mas a violência, dizem, estaria na vidraça quebrada. A imagem pronta.

A incompetência aliada à pressa da economia fora de si girar – “não são porcos que vão trancar as estradas de onde vem nossos lucros” – mostra a carreta caindo por cima das patas de animais já amontoados e feridos. O grito que se segue no meio da rodovia é a vidraça quebrada, no sentido de criar a anormalidade, apenas isso. Estamos diante de um animal que sente dor, medo, angústia, igual a qualquer ser humano. Uma situação absurda dessas é TÃO revoltante que você vê o âncora de um jornal expressar sua indignação de modo claro. A violência nos desperta, ela te joga na cara que você é um agente social e moral com obrigações a se cumprir.

Até onde você vai, depende exclusivamente de ti. O “bem-estar” animal que freia a conclusão óbvia desse caso é uma mentira. Nós sabemos qual é o destino de caminhões como esse e nós não achamos correto infligir dor e sofrimento à seres inocentes. Não existe cultura, tradição ou qualquer porcaria de desculpa que queira se apegar para não concluir que, está ERRADO utilizar-se desses seres para seu bel-prazer. E você sabe.

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Falência e dívidas que ficam: a política que nos aprisiona num inferno.

30 de setembro de 2014
No debate que antecede uma semana das eleições, presenciamos uma das cenas mais tristes de todo esse período: o silêncio dos candidatos em frente à absurdos deferidos em rede nacional, sobretudo de quem se coloca como defensor de direitos de minorias.
 
Esse pequeno texto procura ainda bater o pé nessa história de crenças sobre “menos pior” e “democracia representativa”. Os tempos são sombrios e a sensação de que alguém leia o cabeçalho comece a me taxar com termos esdrúxulos desprovidos de significados se fazem presentes. Mas vamos lá!

Não é novidade a opinião do Senhor Pai de Família (vídeo de Levy Fidelix em debate presidencial). A origem dos pensamentos nos leva à um passado remoto, à níveis extremos do patriarcado como formador cultural, como definidor e regulador de um pequeno universo vivido nas fazendas escravocratas do antigo Brasil. “Implantadas numa sociedade assim estruturada, as instituições republicanas se conformaram como um simulacro de autogoverno incapaz de disfarçar o caráter efetivamente oligárquico do poder que se esconde atrás da aparatosidade democrática representativa”¹. Infelizmente, a sociedade patriarcal, com o fazendeiro patrão, pai, padrinho, protetor, chefe político e empresário, não só estigmatizou até os dias de hoje preconceitos de gênero, de raça, religioso e de comportamentos diversos, como também deixa de herança no solo a incapacidade de pensarmos um sistema onde os focos de decisões políticas consigam desvencilhar-se dos aparatos existentes para a manutenção da mesma ordem.

Estou falando da magnitude em que se aposta nos rumos do país quando enfrentamos um período eleitoral. A histeria em torno do pensamento que apertar botões numa urna decide mais coisas que construções coletivas – ou individuais, considerando sermos sujeitos ativos socialmente – durante toda uma vida, é algo que interessa para a manutenção democrática representativa ou ditatorial de poderes. A democracia, desde a Grécia Antiga, permite que apenas parcelas da população de fato participem integralmente de decisões majoritárias ou, em outras palavras, que afetam e se direcionam à todxs. A constituição do espaço/território criado historicamente vai determinar em cada sociedade quem são os personagens principais e os que estão à mercês desses. Porém, com o moderno advento do direito de voto, estampa-se a mentira que a população em geral é a dona do seu destino. Em suma, interessa muito que nunca aprendamos a organizarmos nada por nós mesmxs. A escola, a religião, televisão, publicidade, patrões e autoridades – em maior ou menor grau – estão aí justamente para dar as travas necessárias.

Deixando um pouco de lado o parágrafo acima e fazendo um esforço para crer em processos ditos democráticos, penso que quando nós temos em rede nacional uma coisa chamada “debate”, esperamos que confrontos sejam normais e que se respeite o intuito de levantar questões com vistas a criar preocupações e dar visibilidade, para que conjuntamente possamos pensar e desenvolver uma visão de sociedade onde caibam respeito e dignidade à toda a população. Não? Só eu penso assim sobre debate? Bom, não sei quanto à você que lê – talvez já esteja acostumado e conformado em como debates eleitorais se dão – mas ficou claro que NENHUM candidato pensa no mesmo intuito que coloquei aqui. Logo voltamos à isso.

Assim como o Estado foi criado para atender à demandas burguesas, os debates eleitorais de TV formam antes torcedores fanáticos do que cidadãos críticos e preparados para intervir. Inverter a ordem de ambos não me parece tarefa fácil e de boas probabilidades, pensando pacificamente na aceitação da disputa por isso. Mas as brechas existem e alguns temas podem ser falados brevemente. Sobre as lutas de minorias, o que inclui LGBT’s, enquanto um partido político se coloca como oposição às realidades presentes e problemáticas, e também como porta voz de movimentos sociais diversos em momentos específicos e definido em acordo prévio com aqueles que buscam representar, eu aceito a legitimidade; em partes. Existem questões urgentes, que podem e devem ser tratadas pelo Estado, – normalmente pela via de formulações de leis – que quando realizadas, tendem a diminuir a arbitrariedade com que ações e falas são despejadas em cima dos direitos de outrxs. É por essa via que as coisas serão resolvidas? Não. Penso que apenas novos moldes de organização social e econômico, baseados na não hierarquização de poderes, destruição da noção de propriedade e autoridade, e sobretudo em construções autônomas para as próprias decisões conjuntas ou individuais poderiam alavancar verdadeiras mudanças de mentalidade, expulsando – ou ao menos dando passos decisivos – heranças malditas impregnadas no ar. Mas isso não me permite dizer que seria inválido lutar por coisas que são urgentes – mesmo com as ressalvas de não serem efetivas – e acima de tudo empoderadoras para quem quer que sofra e necessite desses direitos estendidos. Em outras palavras, se você possui um privilégio e não aceita – ou até mesmo combate – que desprivilegiados lutem da forma que eles bem entendem para isso, você é umx otárix.

Dito isso, gostaria de investigar onde uma campanha eleitoral de quem defende mudanças reais se encaixa no que diz respeito à ser efetivo em alguma conquista. Vejam bem, não é uma pergunta pessoal a pessoas ativas nas mesmas lutas e afiliadas – ou não – à partidos concorrentes às eleições. Para resumir, a indagação é compreender porque a defesa de grupos minoritários não foi levantada com a mesma proporcionalidade como ocorreu quando uma ofensa pessoal chegou até a candidata que trouxe a pergunta para o debate, onde escutamos a resposta malcriada, autoritária e retrógrada.

O que se imagina, é que tamanho disparate poderia ter no tempo final de fala de qualquer concorrente um posicionamento claro ao clímax da noite. Pois bem, comparando à todxs que fizeram de conta não terem ouvido as resoluções saídas diretamente da medicina do século XIX, que tira o comportamento homossexual da área do “pecado” – embora as religiões façam o favor de manter aí – e passa à situação de “doente”, a candidata Luciana Genro foi a menos pior, afirmando seus compromissos com LGBT’s. O problema do “menos pior” é que essa conformação é justamente o que nos impede de enxergar outros horizontes, pois ilude como o brilho de um vidro quebrado no meio da merda. Sim, não estamos olhando para nada precioso, estamos vendo como o jogo político se desenvolve e o que está por vir a seguir se a aposta se mantiver por aí.

Vamos por partes: Houve uma afirmativa por parte da candidata do PSOL que ela pretende ganhar a eleição. Ok, eu não sei se foi um descontrole momentâneo, o que gerou os ares arrogantes ou estratégia para angariar votos nessa atitude confiante de fala. De toda forma, o que eu sinto é a desonestidade do jogo presente também na candidata “menos pior”². Mais do que isso, significa que temos uma história já escrita pela frente, uma que está fadada a repetir-se na democracia brasileira: para ganhar, concessões precisam haver, pautas precisam ir embora e mãos terão que ser apertadas. Se eu estou enganado nisso, eu gostaria muito de saber porque no tempo final de fala, a candidata não usou para rebater com força e com a mesma intensidade que no debate passado a vimos falando sobre corrupção. Gostaria de saber em qual momento seria mais propício refutar e destruir os argumentos patriarcais senão naqueles minutos finais. A resposta só não tá clara para quem prefere manter-se iludidx. A maior oposição dentro da lógica da democracia representativa está inserida no jogo como qualquer umx! Aceita-se as regras, não pede nem direito de mais uma tréplica, não se faz escândalo, não exerce praticamente nenhuma resistência ao absurdo que foi falado a poucos metros e em rede nacional; apenas usa o tempo final para angariar votos e manter o plano de campanha, como é a práxis dxs outrxs que disputam³. E isso fica muito em evidência, quando a pessoa age diferente para falar de corrupção, pois falar de corrupção, além de ser a pauta mais antiga da direita como da esquerda, é como bater em um morto. É fácil, já que corrupção é inerente ao poder, está encrustada desde que “representantes” do povo se colocaram como os escolhidos – ou os ‘votáveis’ -, obedecendo à um monte de regras que privilegiam classes e no capitalismo trabalham a favor das que tem os grandes monopólios econômicos. Nesse entendimento, falar de corrupção sem abrir essas verdades, torna-se apenas mais um engodo eleitoreiro qualquer.

Esse sistema político que permite a fala criminosa de um senhor é o mesmo sistema que se disputa e se despende quantidades absurdas de dinheiro vindo de tudo que é canto, e ainda pior: é o mesmo onde muita gente cheia de vontades – que eu quero supor que sejam verdadeiras – de mudanças, no sentido de abraçar um mundo mais plural, depositam seus esforços e recursos. Está tudo falido, mas vamos depositar nossas maiores preciosidades e esperanças aqui? Faz sentido?

Há movimentos e mudanças que ocorrem cada vez que nos organizamos para reclamar de algo ou para construir mutuamente algo. Existem mudanças em curso que não dependem somente de quem comanda uma abstração que nos fere todo dia. O Estado precisa ser questionado em sua raiz, não pelos galhos podres que vão cair antes de se alcançar o que realmente nos importa. Podemos passar a vida discutindo sobre as breves e moderadas mudanças políticas – onde é importante lembrar que muitas conquistas que se lutam anos podem ser perdidas em dias, por debaixo dos panos – , sobre a troca de personagens nas cadeiras, sobre o escândalo x ou y, a atitude daquele ou daquela, ou podemos expulsá-lo quando fortalecemos algo que não vem à legitimar o papel regulador de todos os aspectos de nossas vidas por ele.

A indignação ao fato visto em vídeo gerou polêmicas, que como sabemos, morrem rapidamente nas manchetes e redes sociais. Mas os momentos podem ser aproveitados para que formações sólidas contra afirmações que geram um ciclo de violência gratuita, ignorância e afetam diretamente a dignidade de pessoas sejam fortalecidos. Isso pode ser feito sem criações de ídolos, sem pedir permissão para um ‘superior’, sem jogar o peso nas costas de quem não pode responder. Essa política de baixo padrão nos aprisiona num inferno de poucas possibilidades no horizonte. Mas essas dívidas do funcionamento do sistema não são nossas. Que construamos algo que possamos sustentar, porque manter a aposta nisso que está aí é a pior das falências para o espírito.

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¹ Darcy Ribeiro em “Configurações Histórico-Culturais dos Povos Americanos”.

² Menos pior se eu tivesse que escolher. Mas a minha escolha é enfraquecer o processo eleitoral e focar-me em fortalecer lutas que possam alargar o direito de escolha não entre personagens que assumem cargos, mas sobre questionamentos de existirem tais cargos. Portanto, não voto.

³ [editado posteriormente – 2 dias após a postagem original] No ultimo debate, o papel e a fala da Luciana Genro, assim como do candidato Eduardo Jorge, foram muito mais contundentes e proporcionais ao que foi dito anteriormente. Senti a necessidade desse registro, pois quero acreditar que as palavras podem ficar marcadas para quando superarmos esses verdadeiros absurdos que vivemos hoje. Também é discutível a possível reação imediata da candidata diante do susto que tomou, estou ciente disso e quero sublinhar que a crítica dura não deve recair sobre a pessoa, mas sobre manter a lógica de projetos eleitorais em curso.


Sobre o menino que teve o braço dilacerado por um Tigre num zoológico.

30 de setembro de 2014

Eu tenho uma pequena contribuição diante das notícias (Julho/2014), pois diante do fato resta apenas lamentar a dor e as sérias consequências de se amputar um braço de uma criança de 11 anos.

A maneira que se relata uma tragédia dessas, infelizmente insere-se em tradições que seguem um caminho de desprezo e ignorância em relação ao tratamento que as manchetes situam os animais ao fato ocorrido. O foco é sempre achar culpados, resumir as informações do sofrimento alheio e então, o que a polícia tem a dizer. Isso basta e seguimos em frente. No máximo, deixamos a justiça dos homens tomar alguma atitude que limite as chances do problema voltar a ocorrer. E quando falamos isso, falamos com sentimento de nobreza que não desejamos de forma alguma que uma dor irreparável aconteça novamente com outro; outro ser humano.

Essa premissa possui dois problemas graves. O primeiro, como já destaquei, é que ela direciona-se apenas à nossa espécie animal e não às outras, que também possuem interesses de viver uma vida que não seja a da escravidão. O segundo problema é que justamente não se encara como um “problema”, mas como uma falha. E eu vou falar uma novidade: existe um abismo entre essas duas palavras. Uma falha é algo que sai do controle quando supomos um sistema de funcionamento perfeito. E eu gostaria muito de saber quando que criar um ambiente artificial, claustrofóbico e depravado se constitui em algo que alguém possa chamar de aceitável. Nós temos um problema inicial, um princípio errado e uma sociedade que mantém em funcionamento, literal e culturalmente, esse problema.

Tiramos seres dos habitats em que vivem, mudamos todas as suas necessidades, ignoramos suas vontades, desprezamos sua biologia, destruímos todos os aspectos de seus comportamentos e então chamamos as pessoas que nos são queridas para ir olhar isso? Para um “passeio”? Pois não parece um passeio pra mim.

Zoológicos são um problema. As falhas estão na essência. Essas jaulas, onde se depositam vidas tratadas como coisas é a pobreza inicial de uma civilização especista e apática. Se temos um problema enraizado, sempre vai gerar consequências, é mais do que óbvio. A ignorância de um pai ao achar que está proporcionando alegria ao filho levando-o até aquele triste cenário é apenas consequência dos nossos problemas. Há um aviso para não pular a cerca? Sim, há. Mas é preciso mais do que isso, é preciso lucidez para entender que ali tudo é irreal, tudo é montado de forma enganosa à nós mesmos. Não é uma pequena regra de conduta que vai parar a nossa ignorância e a nossa péssima interferência em seres que não pertencem ao mesmo espaço que nós.

Se olhamos para um animal sem respeitar a sua individualidade, sem levar em consideração que estamos diante de um sujeito que possui direitos e interesses próprios … O que mais pode-se esperar?

Fechem os zoológicos já!

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Abolicionismo X Bem-estarismo

2 de setembro de 2014

 Este vídeo é um debate entre Gary Francione e Bruce Friedrich. Ambos são vegans e tem um histórico de lutas em prol da libertação animal, mas cada um deles acredita em caminhos diferentes para a mesma finalidade.

Esse resumo básico que escrevo não vai se traduzir no debate de mais de uma hora. O bem-estarismo defendido por Bruce vai muito além das coisas que estamos acostumados a ouvir no cenário brasileiro. Bruce tem algumas questões desafiadoras para Gary, como a exposição de que não considerar e lutar por pequenas melhoras durante a vida de um animal não-humano, mesmo dentro de um sistema que vai matá-lo no final, pode ser um comportamento especista, pois seria enxergado com olhos humanos e desconsidera a individualidade desse animal. Gary cita as organizações que arrecadam grandes montantes de dinheiro e focam seus esforços no bem-estar e não no ponto mais crítico da questão: a libertação da condição que se encontram. Tais políticas podem gerar um passe livre moral para os que se importam com animais, resultando em não aprofundamento em direção ao abolicionismo. 

A palestra é em inglês, com legendas (às vezes confusas) também em inglês. Vale muito a pena assistir para enriquecer pontos importantes de luta nas estratégias da libertação animal.


O ‘ice bucket challenge’ e os buracos em crânios de ratos nos laboratórios

28 de agosto de 2014

A América (sic) veio com outra novidade emocionante para o mundo todo: uma história de luta contra a esclerose lateral amiotrófica transformada em espetáculo midiático e viral de internet. Você joga um balde de gelo na cabeça e cura uma doença. Sim, a mensagem precisa ser simples, assimilada em apenas uma frase: Você joga um balde de gelo na cabeça e cura uma doença. É isso; nada mais.

É espantoso, mas as pessoas acreditam. O mundo parece um lugar simples, sem interesses da indústria farmacêutica, sem um emaranhado de acordos obscuros, sem ganância, sem contradições absurdas. Celebridades tomando um banho de gelo e anônimos sofrendo com o ‘ela’ não fazem parte do mesmo mundo. Muito menos faz parte como as pesquisas se desenvolvem em portas fechadas com xs profissionais “responsáveis”.

Antes de mais nada, sobre as pesquisas, de acordo com a própria FDA (Food and Drug Administration, órgão estadunidense que “cuida” da saúde das pessoas por lá), 92% dos medicamentos que funcionam em testes com animais, falham quando esses são testados em seres humanos. Há uma infinidade de outros argumentos contra usar animais para testes, mas não vou ficar citando aqui. Se a fonte for desconectada de gente paga pela própria indústria que lucra com isso ou o profissional responsável não for um imbecil com problemas éticos graves, você vai ler muita coisa interessante que destrói esse mito da necessidade de testar em animais.

No caso da nova febre mundial, a cada balde derramado, novas pesquisas serão feitas. A maioria delas será falsa e ineficiente para as pessoas que realmente precisam de cura, mas vai encher o bolso de alguns poucos donos de laboratórios e marcas de medicamentos; pessoas essas, que lhe garanto que não precisam de mais dinheiro pra nada. Além disso, a pesquisa é cruel com seres que tem um organismo diferente do nosso, mas que podem sentir as mesmas sensações de dor, medo e angústia. O procedimento estúpido pode incluir perfuração de crânio em ratos para inserção da droga – normalmente com conteúdo de doenças paralisantes – enquanto o animal corre desesperadamente numa esteira inclinada, até que se chegue a exaustão física e morra.

A falta de posicionamentos éticos quando se trata dor com mais dor é acompanhada em tratar um problema sério com ridicularização e incentivo à um espetáculo moderno de egos. Ainda temos no pacote o desperdício de fundos com o direcionamento errado para resolução da doença, o desperdício de água e a criação ou a continuação dessa falta de senso de realidade quando pessoas expressam suas boas intenções.

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Dia Mundial Vegano 2013.

1 de novembro de 2013

Se você pensa que é difícil ser vegan, imagine o quão difícil é para os animais que você não seja.

Para além de todas as opressões pessoas x pessoas, as quais estamos todos inseridos com mais ou menos privilégios, há outra em que estão seres que possuem as mesmas capacidades de sentir, sofrer e interagir com os próximos assim como você, independente do que a sua porcaria de religião possa dizer, ou a ciência patrocinada por interesses escrotos ou ainda as invenções de falsas morais que te deixam confortável possam expressar. Os animais importam e são os sujeitos de uma vida, o que não lhe dá direito algum de tomar de assalto, mesmo que venha disfarçado em embalagens ou propagandas mentirosas.

1º de novembro é o dia mundial do veganismo e a única coisa que podemos comemorar é o fato de alguns de nós termos escolhido iniciar uma tentativa de ser um pouco menos imbecil. Eu sigo a minha escolha, pela verdade e por amor.

 

 coelho testes


Para quem as águas caem?

8 de março de 2013

Chove. Há Silêncio

Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego…

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece…

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente…

Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”

Não há muito tempo atrás, mais precisamente em 1999, a classe governante da Bolívia permitiu a privatização de um bem comum conhecido de todos nós: a água. O controle da água exercido por uma empresa transnacional gerou um aumento nas contas de até 300% antes mesmo de qualquer obra de acobertamento e maquiagem da situação deplorável (ou, como as empresas chamam: “obras de ampliações e melhorias dos serviços”). O contrato, não através de linhas claras, mas respaldado pelo controle e poder garantido a partir de então, praticava termos em que proibia xs moradorxs até de coletarem água da chuva para próprio proveito. (O vídeo de animação acima, provavelmente traduz muito melhor as palavras. Assista)

Essa não foi a primeira experiência boliviana com privatização. Em 1545, uma montanha de prata sustentou escandalosamente todos os domínios da Coroa Espanhola por quase três séculos. Os casarões e nobres salões que abrigaram as festas de maiores farturas e abundâncias dos colonizadores de tempos atrás, ainda estão presentes para contrastar com a memória dos oito milhões de indígenas mortos pela escravidão e tantos outros cegados pela luz do sol ao voltarem à superfície após seis meses de imersão nas cavernas de Potosí.

A natureza como fonte de recursos para objetivos imperiais é uma prática antiga, conhecida por todxs que olham com um pouco de atenção à história ocidental de “conquistas”, onde o status quo vai ditando e mostrando com elegância quais as boas coisas nisso de explorar de forma violenta os bens que possuímos. “Bens que possuímos? Assim mesmo, no plural?” Pois bem, eis aqui a grande batalha de realismo literário da educação burguesa: Nós, humanos, ainda falamos no plural quando pensamos em um bem que é necessário à própria sobrevivência, pois visualizamos no próximo a mesma necessidade. Logo, usar nessa expressão o “nós”, tem um fundamento básico, o do reconhecimento que não somos isolados dos semelhantes. A noção especista não permite que os semelhantes sejam também os animais, todos os animais. A noção racista não permite que sejam todas as cores de pessoas e a noção machista não permite que sejam todos os gêneros. Percebe o sentido e a extensão da batalha pelo plural?

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A concessão do contrato na Bolívia seria de 40 anos, mas acabou em 5 meses devido à uma guerra declarada do povo à empresa e ao governo. Para os bolivianos, o exemplo de luta árdua, mas de reversão da ordem ditatorial imposta, trouxe um aprendizado importante. Formas associativas de lutas sociais com direção e organização locais, alicerçadas em práticas de assembleias, consultas populares e transparência, permitiram a vitória nesse episódio e despertou uma mobilização mais constante da população para outros problemas1.

No Brasil e no mundo, temos inúmeras empresas que colocam a água numa garrafa e vendem. Nós pagamos e pensamos que temos uma comodidade nas mãos. Esquecemos outras possibilidades de distribuição, outras possibilidades de acesso, de tratamento e de qualidade. Nós apenas compramos. Sim, nós temos sede. Eles sabem disso e estão expandindo seus negócios. Eles vieram também de muito longe e faz um bom tempo, mas agora as coisas caminharam para além da especificidade dos venenos viciantes que produziam anteriormente; agora, a água está estabelecida como mais um ramo dos negócios da Coca Cola e da Nestlé. Eu nem preciso falar que eles não usam o plural para falar sobre um elemento essencial à vida, porém é provável que você encontre o contrário nos comerciais de televisão.

“Eles” não são parte de nós. O negócio deles é complicar a luta pelo plural, é aumentar o controle educacional propagandístico em que precisamos estar submetidos aos seus produtos para “viver melhor” ou de acordo com os padrões de saúde estabelecidos pelas próprias empresas em aliança com esferas mantenedoras do modo de vida burguesa. Além disso, aos poucos, como era de se esperar, essas duas empresas estão aumentando suas participações no “ramo da água”2

A Nestlé, que já foi na Europa acusada formalmente em associações ligadas à industria de alimentos por “má conduta”, coisas que incluem marketing agressivo de alimentos para bebês, quebra de sindicatos, destruição ambiental e exploração de fornecedores, é além de tudo, a responsável direta por simplesmente implantar a retórica de que leite materno não é suficiente para formação de seres humanos; leite de vaca industrializado e misturado com pós e papinhas patenteadas resolvem tudo3.

No caso da água, a empresa conseguiu passar por cima de resoluções federais, como o impedimento da “desmineralização”, onde agora é inserido sais minerais de suas patentes e também, fazer o bombeamento das fontes em ritmos mais acelerados que o permitido na Constituição, porém com licença governamental desde 2004. Os impactos ainda são incalculáveis para a região de São Lourenço, em Minas Gerais, mas sabe-se que dois grandes poços já secaram e que o lençol subterrâneo traduz os prejuízos com sinais de afundamento de superfícies.

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Estima-se que “entre 1503 e 1660, desembarcaram no porto de Sevilha 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata. A prata levada para a Espanha em pouco mais de um século e meio excedia três vezes o total das reservas europeias. E essas cifras não incluem o contrabando”4. A coroa espanhola, no entanto, possuía um falso monopólio na extração das montanhas bolivianas. O esbanjamento da aristocracia, (há, por exemplo, registros de duques que sustentavam nada menos que 700 criados) aliado à falta e por vezes a proibição de investimento industrial, fez com que a Espanha se tornasse dependente economicamente de outros países europeus e criou nessa mesma época uma enorme disparidade social na sua população. De toda forma, o grande fator que envolve toda a configuração dos problemas do país nos séculos XVI a XVIII, onde viu-se sua população ser reduzida pela metade, foi justamente onde mais investiu-se com as riquezas além-mar: as guerras santas. Quer dizer, as montanhas que ainda hoje abrigam trabalhadores que arranham suas paredes com as unhas em busca de estanho, um mineral considerado veneno e rejeitado séculos antes, foram as grandes patrocinadoras das maiores perseguições religiosas que o mundo já vivenciou. À contragosto, a Bolívia impulsionou e contribuiu para o desenvolvimento de toda a Europa. As maiores preciosidades do mundo, eventualmente se transformam em miséria e geram grandes guerras.

Um reservatório subterrâneo de água, conhecido como Aquífero Guarani e localizado no centro sul do Brasil e em países vizinhos, possui uma área equivalente aproximadamente aos territórios da Inglaterra, França e Espanha juntas. Mas, deixando de lado o passado ou, superando toda a história de controle exercido por Estados nacionais, temos agora uma companhia privada na jogada: Ela é chamada de “Coca Cola” e, ao que parece, está comprando terras estrategicamente localizadas nessa formação para extrair prata e levar em navios clandestinos para terras distantes e patrocinar novas guerras5.

Na próxima vez que cair água dos céus, pergunte a si mesmx se é mais umx que lamenta a aguaria, ou se a chuva lhe dá coragem para se molhar. Não precisamos fazer jogos de previsões com os gráficos coloridos, basta olhar o horizonte e preparar-se para o que vem por aí.

igreja afundada

1 Um caso importante e recente a ser citado na perspectiva de vitórias populares no país é a descriminalização reconhecida internacionalmente da folha de coca – elemento considerado sagrado, medicinal e alimentício pelos nativos desde tempos ancestrais e criminalizado há 50 anos atrás pelos países desenvolvidos. Durante esse período, políticas neoliberais tentaram implantar produtos industrializados como “alternativa” usando a folha, numa tentativa de forjar um nicho de mercado que não obteve sucesso, pois implicaria em chamar o produtor como narcotraficante e o consumidor como dependente químico. A reação e as exigências recentes em frente ao governo fez com que o assunto entrasse em pauta na ONU para votação em janeiro de 2013. Dos 184 países, apenas 15 se opuseram – entre eles, EUA. Vale lembrar que para produzir a Coca Cola, nunca houve oposição alguma.

2 Parece ser uma coisa besta, mas é justamente nesses pequenos detalhes inseridos em nossa linguagem que, de tão corriqueiros, transformam grandes absurdos em algo completamente aceitável e ainda digno de repetição sem maiores questionamentos por nós mesmxs. A água não é um bem vendável (ou não deveria ser), não deveria existir esse “ramo de negócio”, deveria existir uma cooperação para fazermos uso do bem. Mesmo a água encanada e controlada pelo Estado é encarada como um serviço prestado, ou seja, você paga por todo o tratamento, rede de esgotos, funcionários, impostos diversos, eventuais serviços e o papel do boleto. A regulação desse preço vem da quantidade consumida. Não é uma defesa desse modelo, mas é chamar atenção ao fato que nem mesmo o Estado consegue deixar tão explícito a noção da água ser um produto como outros quaisquer.

3 Há de se considerar que leite materno, independente da espécie, está em suas qualidades intimamente ligado à saúde feminina. Logo, uma promoção verdadeira do significado vital da amamentação, só pode ser pensado dentro de uma amplitude que considere as condições gerais de vida de uma sociedade, cenário que não é nem de perto produzido pela empresa. A inserção de produtos industrializados que auxiliariam a formação básica de seres humanos – investimento que se deu principalmente em países Africanos, onde o leite em pó foi apresentado com imagens de mulheres enfermeiras nas embalagens, conferindo-lhes status técnico-científico – não passou de propaganda enganosa já na sua essência, considerando as condições precárias de vida das populações, agravadas justamente pelos subempregos e pela exploração ambiental, onde, não para a nossa surpresa, o pó era misturado com (adivinhe!) água contaminada. Também é preciso lembrar que aos olhos da maioria da população, veganxs estão fora de si por não beberem leite de um ser que não é nossa mãe, ou seja, a noção estapafúrdia está bem viva.

4 “As veias abertas da América Latina” – Eduardo Galeano.

5 Leia de novo! Ok, você é espertx e entendeu direitinho. Em caso de dúvida: hoje grandes corporações (a citada foi apenas um exemplo) patrocinam guerras que se desenvolvem a partir de slogans como “libertação à oprimidxs”, entre outros não tão diferentes dos usados por cavaleiros espanhóis no eterno “pecaminoso” oriente. As guerras ainda são levadas por um exército nacional e ainda matam e fazem sofrer fisicamente outros seres como nos velhos tempos, porém possuem hoje uma estratégia atualizada frente aos antigos romanos. A atualização se chama propaganda. Ela minimiza a percepção do dominado e pode ser bem doce e resfrescante.