Desventurada família humana

” (…) Entre as coisas do Ceilão que me relembro inclui-se uma grande caçada de elefantes.

Os elefantes tinham se propagado em excesso em um determinado distrito e incursionavam danificando casas e plantações. Por mais de um mês ao longo de um grande rio os camponeses – com fogo, com fogueiras e tantãs – foram agrupando os rebanhos selvagens e impelindo-os até um recanto da selva. De noite e de dia as fogueiras e o som inquietavam as grandes gestas que se moviam como um rio lento até o noroeste da ilha.

O kraal estava preparado para aquele dia. As paliçadas obstruíam uma parte do bosque. Por um corredor estreito vi o primeiro elefante que entrou e se sentiu cercado. Já era tarde. Avançavam centenas mais pelo estreito corredor sem saída. O imenso rebanho de cerca de quinhentos elefantes não pôde avançar nem retroceder.

Os machos mais poderosos dirigiram-se para as paliçadas tentando derrubá-las, mas atrás delas surgiram lanças inumeráveis que os detiveram. Recuaram então para o centro do recinto, decididos a proteger as fêmeas e os filhotes. Era comovedora sua defesa e sua organização. Lançavam um chamado angustioso, espécie de relincho ou trombetada, e em seu desespero arrancavam pela raiz as árvores mais fracas.

Súbito, cavalgando dois grandes elefantes domesticados, entraram os domadores. A parelha domesticada atuava como policiais vulgares. Colocavam-se às costas do animal prisioneiro, golpeavam-no com as trombas e ajudavam a reduzi-lo à imobilidade. Os caçadores então amarravam-lhe uma pata traseira com cordas grossas a uma árvore vigorosa. Um por um foram submetidos dessa maneira.

O elefante prisioneiro recusa o alimento por muitos dias. Mas os caçadores conhecem suas fraquezas. Deixam-no jejuar algum tempo e logo lhes trazem brotos e grelos de seus arbustos favoritos, desses que, quando estavam em liberdade, procuravam através de longas viagens pela selva.  Finalmente o elefante se decide a comer. Já está domesticado. Já começa a aprender seus trabalhos pesados. “

Pablo Neruda em “Confesso que vivi”.

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