O problema de não dar espaço para a razão

Trago hoje uma discussão que tive o prazer imenso de participar em sua prática no curso “Introdução à ética em geral e tópicos sobre ética animal” realizado em Curitiba no mês de março desse ano. Foram dois dias de encontro e o estudo foi feito pelo mestrando em  ‘Ética e Filosofia Política’ na UFSC – Luciano Carlos Cunha. Dos inúmeros pontos que entraram em questão no curso, um deles  remetia justamente ao uso da imagem acima, já bem conhecida. É o uso do emotivismo em frente à razão. Segue o trecho escrito pelo Luciano:

“Contudo, o emotivismo não está livre de problemas graves. Um grande problema é que essa teoria assume que somos pura emoção, e não somos também dotados de razão. Quando alguém faz um julgamento ético, é sempre legítimo perguntar pelas razões que dão sustentação a tal julgamento. O emotivismo vê as razões apenas como tentativas de influenciar a conduta do outro. Portanto, desde que consiga-se o efeito almejado, o emotivismo considera uma razão válida. Assim, como o filósofo James Rachels exemplifica, ao analisar a teoria: “Suponha que eu esteja tentando convencê-lo de que o Sr. Silva é uma pessoa má (…) mas você está resistindo. Sabendo que você é racista, eu digo ‘O Sr. Silva é negro'” (RACHELS, Elementos da Filosofia da Moral, p.41). Se isso convencesse o interlocutor, o emotivista teria de considerar uma razão válida. Mas, obviamente, a raça de alguém não é relevante para estabelecer sua maldade, independentemente do que todas as outras pessoas do mundo pensam sobre isso. Então, por não conseguir distinguir quais razões são, de um ponto de vista ético, válidas (quais tem a ver com o assunto que está em discussão), o emotivismo também sucumbe (…).”

Basicamente, temos um foco aqui de que se basearmos discursos de propaganda no ‘emotivismo’, poderemos sucumbir facilmente. A imagem acima, embora cause um questionamento direto e  arrisco a dizer,  já deu vários ‘empurrões’ em decisões pessoais para o campo do vegetarianismo, ela simplesmente não consegue se manter se a pessoa questionada expressar que não ama cachorros. E se ela não ama cachorros, o resto não faz nenhum sentido e nada poderá mudar. Ou seja, aqui temos “o problema de não dar espaço para a razão”, pois ela é que vai manter-se. Na prática, acredito que o indivíduo que ‘entra’ no vegetarianismo ao ver cartazes como esses, e posteriormente não tem acesso à maiores informações sobre o assunto, torna-se muito mais propício de abandonar a decisão tomada, justamente por não estar comprometido com uma fundação de pensamento.

*voltarei em outro momento à tratar mais tópicos desse trabalho (maravilhoso, diga-se de passagem) e agradeço ao Luciano pela liberdade de poder postá-los aqui.

4 respostas para O problema de não dar espaço para a razão

  1. Drika disse:

    Ótimo, se puder fale mais sobre os questionários q nós vegetarianos temos q passar, do tipo: Mas e o coitado do alface…. não aguento mais ter q justificar esse tipo de coisa.

  2. Vera Falcão disse:

    Possivelmente, por apelar à emoção, essa imagem funciona bastante com crianças, que, em 99,9% amam cachorrinhos… foi a primeira camiseta veg que minha filha escolheu, lá pelos 5 anos de idade e adorava desfilar com ela, principalmente para mostrar às outras crianças.
    Congratulations pelo blog!

  3. Elisa disse:

    Tô vendo esses post com uns meses de atraso, mas… né, ainda vale, hahahaha.

    Achei muito bom o raciocínio. O dia que eu resolvi parar de comer carne foi bem por causa de uma cachorrinha, seguindo esse raciocínio. Mas, claro, que só continuo até hoje porque desde então tenho pensado muito no assunto e me informado e, assim, encontrado outras razões para seguir com o vegetarianismo.
    Bom, você sabe, né. :)

    Mas também não dá certo com todo mundo, né, conheço um cara vegan que detesta bichinhos de estimação, hahahahahaha. Estranho, mas ok.

    :*

  4. Lucas disse:

    concordo! da hora o blog. parabéns pelo trampo, valeu!

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