Alguma coisa de futuro

Num momento ou em outro, o presente deixará de ser a nossa certeza. Não está lúcido, mas está em todas as pessoas que o futuro não é apenas um luxo. Ele faz parte como o seu café da manhã de hoje, você o quer por perto, e você caminha para conquistá-lo, simplesmente porque não podemos nos permitir cravar uma estaca em nosso próprio pé. Assim é como pensamos o futuro, querendo ou não. O problema é quando isso não se reflete em pensamentos inteligentes e claros sobre o que podemos fazer hoje. Há de se conquistar uma revolução interna, mas se colocar como protagonista externo dessas ações. A motivação vem de pensar que cada indivíduo busca alguma coisa de futuro, em diferentes níveis, em diferentes condições, mas a busca não cessa. E é por isso que há trabalho à ser feito.

– Olhe – disse Roany -, não é carne bovina. É de búfalo. Aqui ninguém come carne bovina. Aliás, o que a gente come não tem nada a ver com o movimento que você e Shy estão fazendo.

– Tem tudo a ver. Os criadores de gado subvencionados a essas suas vacas que são uns balões de gás que destroem a propriedade pública, o habitat ribeirinho, arrancam plantas raras, pisoteiam as margens dos córregos, produzem gás metano que destrói o ozônio, devastam os Parques Nacionais que pertencem ao povo, a todos nós, é isso o que fazem essas vacas nojentas, idiotas e poluidoras que destroem o mundo, e para quê? Ridículos três por cento do produto estadual bruto. Para que uns poucos possam viver como se vivia no século XIX – ele se deteve meio desesperado. Ter que explicar aquilo ali. Baixou os olhos.

(…)

– Quero voltar atrás – disse ele. Sua voz estava inflada de paixão profissional. – Quero que tudo volte a ser como antes, que todas as cercas e todas as vacas desapareçam. Quero que os capins e as flores silvestres nativas tornem a brotar. Quero águas claras correndo nos riachos secos, os mananciais voltando a fluir e os grandes rios vazando com força. Quero que o lençol freático seja recuperado. Quero que os antílopes e os alces e os bisões e os carneiros selvagens e os lobos recuperem seu território. Quero que os criadores de gado, os operários, fabricantes e distribuidores da industria da carne caiam de cabeça no inferno.

Wade Walls, protagonista dos trechos, é um personagem fictício de um conto chamado “Os Governadores de Wyoming”, do livro “Curto Alcance”, escrito por Annie Proulx, a mesma autora de “ O Segredo de Brokeback Mountain”. Achei curioso ver como alguns personagens no meio de um cenário, à primeira vista, “previsível” acabam tendo reações alternativas ao modelo de vida que lá se concentram. O Estado de Wyoming, nos EUA, é uma “terra de ranchos de caubóis, planícies e montanhas castigadas pelo vento, poeira, chuva e neve, de estação para estação”. Nos lugares inóspitos trabalhados pela autora, o convívio cru e forte entre as poucas pessoas que há na vista dos olhos promove comportamentos que “vão do sobrenatural ao francamente cômico, do quase heróico ao patético”, revelando o que há de mais interior nas pessoas, como essa vontade de transformar e de parar com o que não faz sentido. Para mim, é essa a lição.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: