Valores nos corpos

Toda organização política exerce um controle público sobre o corpo privado. A prisão e a impressão digital são bons exemplos. Expressões como “corpo místico”, “corpo da armada”, “corpo da lei”, “corporação profissional” o demonstram bem. A luta de classes e a hierarquia das funções fazem também da política uma metáfora do corpo. Os corpos tornam-se uma nova mercadoria a se consumir em todas as suas formas – a higiene, a maquilagem, a vestimenta, os esportes da moda. (…) Assim, o corpo não é apenas uma mercadoria, mas um capital que se deve fazer frutificar, seja pelo trabalho ou pela institucionalização das férias. (…) O corpo é um índice da classe a que se pertence, da mesma forma que a habitação e o automóvel. Essa separação persiste mesmo após a morte, na maneira como são tratados os corpos nos funerais.¹

Podemos expandir muito mais essa visão fazendo uso de filosofias, contrapondo-se uma as outras, a noção física, biológica, as ligações com o ambiente ou as questões de pertencimento à esse, também a noção do equilíbrio de forças ou ainda, o instrumento do pecado pela noção judaico-cristã. Mas mantendo-se no foco da prerrogativa do “corpo negócio”, tão sentida em nossa sociedade do lucro, do rendimento, da produção em nome da perpetuação do mesmo sistema, da propaganda, da competição, entre outras coisas, tem-se a noção de como essa condição nos provoca desvarios, cria delírios e fortemente molda inconscientes, que se não tratados a tempo jamais dissociarão a imagem construída do que de fato, pode-se representar o corpo: um local de troca, fraternidade, nudez, contato, encontro, discussões, fonte de emoções e sentimentos.

Uma das maneiras de desvencilharmos do que nos colocam como um caminho seguro para nos mantermos sem o desprazer da dor em vários níveis de percepção, ou seja, fazer uso das drogas farmacêuticas, é antes de tudo, eliminar o pensamento que esse é um caminho seguro. Pois não há propaganda que consiga superar um pensamento sóbrio e focado nos próprios fatos: As drogas farmacêuticas e os tratamentos tradicionais de ‘cura’ não curam o corpo como um todo, mas o vicia, o torna dependente quimicamente ou de atividades psíquicas não voluntárias, entre outras situações. O próximo movimento é conhecer como cuidar desse corpo longe da ótica dominante da medicina moderna, ou a ‘medicina’ do lucro.

Os entendimentos sobre saúde e a própria definição dessa palavra podem passar por diferentes sentidos em mais variadas culturas, mas nunca dissociado do ato de manter-se são, que trará consigo alguns níveis de percepção para o mesmo. Mas a visão dominante e a que deve ser combatida é a da ‘qualidade de vida’, engendrada pelos gestores capitalistas. Para esses, ter qualidade é possuir uma rotina, fazer movimentos repetitivos e programar um pequeno periodo com uma organização e horarios semelhantes, mas em outro cenário. Em outras palavras, férias. Supõe-se que saúde é ter um horário de descanso e entretenimento, normalmente em frente à um televisor, com um automóvel x conduzindo no caminho, as vestimentas adequadas, as horas e o poder de compra e outros poderes que acabam ligando ou acorrentando um modo de vida ao trabalho, o qual responde às necessidades criadas para obter a ‘qualidade total’.

Nesse ponto enxergamos presente um outro elo que a saúde e seus decorrentes terrenos de significações expõem, como é o caso de inserir um modelo do que é ter uma boa saúde, uma boa vida. E nada se desliga ao fato de produzirmos o capital para isso, portanto, é possível deduzir que a saúde depende do trabalho, e esse cria suas bases de funcionamento através do lucro, não de éticas, como todos sabem. Em outras palavras, a saúde se liga a exploração de outros homens e de animais. Mais uma vez, criam-se abismos maiores, “Os brasileiros pobres que estudam e trabalham são verdadeiros heróis. Submetem-se a uma jornada de até 16 horas diárias, oito de trabalho, quatro de estudo e outras quatro de deslocamento. Isso é mais do que os operários no século XIX.” ² O sistema de qualidade de vida é vendido e propagandeado para todos, e assim como outros produtos da burguesia: você tem de pagar para ficar enquadrado. Isso levará, como vimos, a outras consequencias, assim como se aceitarmos um ‘veganismo de mercado’. Ou seja, aceitar que nos digam que a solução à exploração animal estará em prateleiras, dentro do mesmo sistema, dentro dos mesmos padrões de trabalho, dentro da continuidade da exploração humana, dentro das mesmas propagandas falsas.

animais torturados em nome da saúde

Exijamos de nós mesmos uma consciência que trate o corpo e a saúde não como matérias vendáveis e próprios instrumentos do lucro. Exijamos um maior cuidado com a vida. Maior vivência, maiores verdades, maiores contatos e descobertas, longe do que nos oprime.

¹Paulo Freire, (trechos selecionados)  de “Soma – A Alma é o Corpo”. ²Márcio Pochmann do link.

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