O veganismo será relevante para os próximos 70 anos?

Segue um artigo traduzido do blog “Vegetarian Myth Myth“.

Quando Donald Watson, Sally Shrigley e 23 de seus amigos fundaram a “Vegan Society” em 1º de novembro de 1944, o mundo era um lugar muito diferente. Não foi por acaso que o veganismo, um termo cunhado por Watson, foi ganhando força durante os meses finais da Segunda Guerra Mundial. Com o pôr do sol sobre os velhos impérios marítimos, muitos europeus olharam para a devastação provocada pela guerra industrial e sabiam que tinha de haver uma outra maneira. Infelizmente, Roosevelt, Stalin e Churchill tinham outras ideias. Os políticos, industriais e aproveitadores dos lucros da guerra, classificaram que eles fizeram bem feito, pois perderam pouco tempo durante os anos de guerra para consolidar o poder. Enquanto os Estados Unidos e o Império Soviético se levantavam, anarquistas e a esquerda política fizeram o melhor para se recuperar da repressão dos anos de guerra. Visionários igualitários como Watson procuraram maneiras pioneiras de viver,  que poderiam deixar a violência da guerra e o abatimento no passado. Então, por que não nós?

A história dos boicotes estratégicos é longa, e nos anos que antecederam o nascimento da Vegan Society de Donald Watson, já tinham sido utilizadas em diversos graus de sucesso. Desde o boicote da “Liga Nacional Negra”  dos bens produzidos por trabalho escravo em 1830 a Gandhi durante a luta pela independência da Índia,  para o boicote Judeu organizado contra a Ford, por seus laços com o Terceiro Reich, havia amplo e suficiente precedente histórico para sugerir que a negação coordenada de apoio econômico popular poderia resultar em pelo menos um grau de reforma sistêmica.

Muito mudou entre os anos  de 1944 a 2011. Enquanto o veganismo como um simples boicote pode ter parecido uma estratégia suficiente há 67 anos em um mercado pré-global, não podemos hoje mais esperar para comprar o nosso caminho para a revolução. Ultimamente, os esforços de ações que não atacam as causas da exploração sistêmica resultarão na recuperação do veganismo pelo poder institucional. Como discutimos em um post anterior, o capitalismo global depende de uma margem cada vez maior de maximização do lucro através da extração de recursos. Mesmo se formos suficientemente ingênuos para acreditar que podemos minimizar os efeitos desta extração através da reforma dos seus aspectos mais brutais, a lógica capitalista sempre procura uma maior taxa de eficiência de extração. O unico equilíbrio  procurado por este sistema é a de um planeta morto em que todos os recursos tenham sido explorados até o ponto de inutilidade. Isso é incompatível com a ética do veganismo, e como tal, qualquer vegano sério precisa ser tão sério sobre a organização contra o capitalismo global como eles são pelo boicote da carne e produtos lácteos.

Uma visita a feirinha ou empório de comidas naturais do seu bairro mostra como até mesmo um ethos  (a ética) como o veganismo pode ser transformado em uma divisão de classe. Pagando grandes corporações para transformar a sociedade para nós não é uma estratégia política viável. Quando nos envolvemos com o veganismo exclusivamente como consumidores, estamos sendo presas e caindo nos mesmos truques de marketing que legitimam a carne humana (sic): a de que um estilo de vida sem culpa custa apenas alguns dólares extras por semana. Esta falta de estratégia garante que o veganismo terá uma morte tranquila em um gueto subcultural  de classe média de nossa própria criação. A devastação ecológica e o assassinato da biodiversidade provocada por plantações de soja é como o capitalismo industrial interpreta o veganismo. Se o veganismo não é anti-capitalista, então é inútil, exceto talvez, para nos deixar testemunhar uma extinção em massa em câmera lenta.

Nada disso quer dizer que o aspecto boicote produzido pelo veganismo carece de relevância, somente que não podemos esperar para fazer o progresso social envolvendo-se na ética do veganismo apenas como consumidores. Boicotes têm sido usados ​​no passado como poderosas ferramentas de organização. Eles são demonstrações de força, incorporados com solidariedade, disciplina e unidade. Eles são luzes para outros que se importam mas sentem-se impotentes ou isolados. Estamos aqui, estamos equilibrados  e cada pessoa que vem com a gente adiciona para a inércia histórica de nosso movimento.

O boicote só pode ser o nosso primeiro passo como um movimento, mas não é o único que fizemos em 70 anos.  A “Hunt Saboteurs Association”, a “Band of Mercy”, a “Animal Liberation Front”, as Ligas Libertárias, “SHAC e todas as Ligas de Defesa Animal representam avanços estratégicos na luta pela libertação animal. Concordando ou não com qualquer tática especial utilizada por esses grupos, é importante estudar suas histórias. Se você é alguém para quem o veganismo é um ato político, então é a sua história. Para que este movimento mantenha relevância para outros 70 anos, precisamos ser destemidos de sua evolução a partir da reação anticapitalista como ferramenta de organização para uma fundação social pós-capitalista.

2 respostas para O veganismo será relevante para os próximos 70 anos?

  1. Vinicius disse:

    Legal o post. O boicote em si só é algo eficiente se for apoiado por massas, caso seja isolado, caso seja uma proposta ‘alternativa’, caso seja de um grupo minoritário, serve só como massagem de ego.

    http://cabanadeinverno.wordpress.com/2011/08/10/o-boicote-a-coca-cola/

    Eu creio que agora, amis do que nucca, o vegetarianismo precisa estar totalente atrelado à movimentos de esquerda. Totalmente.

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