O desagrado do oculto: veganismo e a quebra de grossas paredes.

(Este texto busca ser introdutório à questões amplas da prática vegana. Já foi publicado na versão impressa do apatia humana e de um zine independente.  Pequenas alterações foram feitas)

Está tudo servido à mesa, outra vez você vai sentar-se, pegar os talheres e começar a cerimônia que se repete tradicionalmente. As coisas parecem terem sido montadas de uma forma difícil de haver confusões: É preciso alimentar-se e ali está a comida, certo?

Bem, nada está como está por acaso. Existe um processo sempre em movimento ao qual chamamos de costumes e de civilização. Em vários momentos da história, algum sujeito se levantou da mesa, e estando curioso, nervoso ou confuso, começou a questionar alguma prática vivida naquele momento para os presentes. Não só isso, mas uma série de fatores num momento ou outro (podemos incluir desastres naturais, guerras, colapsos da economia, pestes) se misturaram aos hábitos e aos pensamentos que constroem o que existe à disposição hoje nas vastas e plurais mesas. O “Veganismo”, termo surgido há 70 anos, faz parte de um processo questionador de nossos costumes e das relações entre animais humanos e não humanos.

Destrinchar um animal inteiro em cima da mesa já foi um costume da alta burguesia europeia, o anfitrião mostrava suas habilidades aos convidados, que assistiam e aplaudiam a ação. Não durou muito tempo e essa cena começou a ser feita exclusivamente por empregados na cozinha, separada da sala, preparada para novas cerimônias.  A carne que hoje se compra no mercado dentro de uma embalagem de isopor branca ou fechada à vácuo com plásticos transparentes sem rastos de sangue é considerada, pelo senso comum, uma evolução nos costumes. Mas todos esses modos atuais, inversamente proporcionais na relação entre crueldade e exposição, onde todo o trajeto para os produtos chegarem aos que usufruem está oculto, e o que é revelado é apenas um pacote ornamentado por profissionais de outra área,  (leia-se: manipulação estratégica com fim determinista econômicos) não podem esconder ou ainda eliminar a  capacidade humana de questionar e exercer escolhas baseadas em princípios éticos filosóficos.

Está implícito em cada produto alimentício um caminho percorrido: o trato com a terra, as mãos que trabalham, o salário e as condições das mesmas, o transporte, os desperdícios e as relações exercidas entre esses fatores. Não há neutralidade em nossas escolhas, não há fuga da política se pensamos em nos manter alimentados e vivos. Escolher diminuir o sofrimento animal, tendo em vista a abolição dessa escravidão imposta aos seres que possuem características semelhantes às nossas em sentir dor, medo, angústia, fome e frio é a base da dieta vegana. Essa escolha não fica limitada aos animais, pois se insere em toda relação dita anteriormente. As orientações e posições tomadas não são desassociadas da lógica que procura encontrar uma ética em outros campos. Se você já se questionou de onde vem sua comida ou porquê você se alimenta do que se alimenta, procure se informar. É possível escolher pelo não sofrimento, e isso é o mínimo que podemos fazer.

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