Para quem as águas caem?

Chove. Há Silêncio

Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego…

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece…

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente…

Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”

Não há muito tempo atrás, mais precisamente em 1999, a classe governante da Bolívia permitiu a privatização de um bem comum conhecido de todos nós: a água. O controle da água exercido por uma empresa transnacional gerou um aumento nas contas de até 300% antes mesmo de qualquer obra de acobertamento e maquiagem da situação deplorável (ou, como as empresas chamam: “obras de ampliações e melhorias dos serviços”). O contrato, não através de linhas claras, mas respaldado pelo controle e poder garantido a partir de então, praticava termos em que proibia xs moradorxs até de coletarem água da chuva para próprio proveito. (O vídeo de animação acima, provavelmente traduz muito melhor as palavras. Assista)

Essa não foi a primeira experiência boliviana com privatização. Em 1545, uma montanha de prata sustentou escandalosamente todos os domínios da Coroa Espanhola por quase três séculos. Os casarões e nobres salões que abrigaram as festas de maiores farturas e abundâncias dos colonizadores de tempos atrás, ainda estão presentes para contrastar com a memória dos oito milhões de indígenas mortos pela escravidão e tantos outros cegados pela luz do sol ao voltarem à superfície após seis meses de imersão nas cavernas de Potosí.

A natureza como fonte de recursos para objetivos imperiais é uma prática antiga, conhecida por todxs que olham com um pouco de atenção à história ocidental de “conquistas”, onde o status quo vai ditando e mostrando com elegância quais as boas coisas nisso de explorar de forma violenta os bens que possuímos. “Bens que possuímos? Assim mesmo, no plural?” Pois bem, eis aqui a grande batalha de realismo literário da educação burguesa: Nós, humanos, ainda falamos no plural quando pensamos em um bem que é necessário à própria sobrevivência, pois visualizamos no próximo a mesma necessidade. Logo, usar nessa expressão o “nós”, tem um fundamento básico, o do reconhecimento que não somos isolados dos semelhantes. A noção especista não permite que os semelhantes sejam também os animais, todos os animais. A noção racista não permite que sejam todas as cores de pessoas e a noção machista não permite que sejam todos os gêneros. Percebe o sentido e a extensão da batalha pelo plural?

potosi

A concessão do contrato na Bolívia seria de 40 anos, mas acabou em 5 meses devido à uma guerra declarada do povo à empresa e ao governo. Para os bolivianos, o exemplo de luta árdua, mas de reversão da ordem ditatorial imposta, trouxe um aprendizado importante. Formas associativas de lutas sociais com direção e organização locais, alicerçadas em práticas de assembleias, consultas populares e transparência, permitiram a vitória nesse episódio e despertou uma mobilização mais constante da população para outros problemas1.

No Brasil e no mundo, temos inúmeras empresas que colocam a água numa garrafa e vendem. Nós pagamos e pensamos que temos uma comodidade nas mãos. Esquecemos outras possibilidades de distribuição, outras possibilidades de acesso, de tratamento e de qualidade. Nós apenas compramos. Sim, nós temos sede. Eles sabem disso e estão expandindo seus negócios. Eles vieram também de muito longe e faz um bom tempo, mas agora as coisas caminharam para além da especificidade dos venenos viciantes que produziam anteriormente; agora, a água está estabelecida como mais um ramo dos negócios da Coca Cola e da Nestlé. Eu nem preciso falar que eles não usam o plural para falar sobre um elemento essencial à vida, porém é provável que você encontre o contrário nos comerciais de televisão.

“Eles” não são parte de nós. O negócio deles é complicar a luta pelo plural, é aumentar o controle educacional propagandístico em que precisamos estar submetidos aos seus produtos para “viver melhor” ou de acordo com os padrões de saúde estabelecidos pelas próprias empresas em aliança com esferas mantenedoras do modo de vida burguesa. Além disso, aos poucos, como era de se esperar, essas duas empresas estão aumentando suas participações no “ramo da água”2

A Nestlé, que já foi na Europa acusada formalmente em associações ligadas à industria de alimentos por “má conduta”, coisas que incluem marketing agressivo de alimentos para bebês, quebra de sindicatos, destruição ambiental e exploração de fornecedores, é além de tudo, a responsável direta por simplesmente implantar a retórica de que leite materno não é suficiente para formação de seres humanos; leite de vaca industrializado e misturado com pós e papinhas patenteadas resolvem tudo3.

No caso da água, a empresa conseguiu passar por cima de resoluções federais, como o impedimento da “desmineralização”, onde agora é inserido sais minerais de suas patentes e também, fazer o bombeamento das fontes em ritmos mais acelerados que o permitido na Constituição, porém com licença governamental desde 2004. Os impactos ainda são incalculáveis para a região de São Lourenço, em Minas Gerais, mas sabe-se que dois grandes poços já secaram e que o lençol subterrâneo traduz os prejuízos com sinais de afundamento de superfícies.

minas-potosi-transporte

Estima-se que “entre 1503 e 1660, desembarcaram no porto de Sevilha 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata. A prata levada para a Espanha em pouco mais de um século e meio excedia três vezes o total das reservas europeias. E essas cifras não incluem o contrabando”4. A coroa espanhola, no entanto, possuía um falso monopólio na extração das montanhas bolivianas. O esbanjamento da aristocracia, (há, por exemplo, registros de duques que sustentavam nada menos que 700 criados) aliado à falta e por vezes a proibição de investimento industrial, fez com que a Espanha se tornasse dependente economicamente de outros países europeus e criou nessa mesma época uma enorme disparidade social na sua população. De toda forma, o grande fator que envolve toda a configuração dos problemas do país nos séculos XVI a XVIII, onde viu-se sua população ser reduzida pela metade, foi justamente onde mais investiu-se com as riquezas além-mar: as guerras santas. Quer dizer, as montanhas que ainda hoje abrigam trabalhadores que arranham suas paredes com as unhas em busca de estanho, um mineral considerado veneno e rejeitado séculos antes, foram as grandes patrocinadoras das maiores perseguições religiosas que o mundo já vivenciou. À contragosto, a Bolívia impulsionou e contribuiu para o desenvolvimento de toda a Europa. As maiores preciosidades do mundo, eventualmente se transformam em miséria e geram grandes guerras.

Um reservatório subterrâneo de água, conhecido como Aquífero Guarani e localizado no centro sul do Brasil e em países vizinhos, possui uma área equivalente aproximadamente aos territórios da Inglaterra, França e Espanha juntas. Mas, deixando de lado o passado ou, superando toda a história de controle exercido por Estados nacionais, temos agora uma companhia privada na jogada: Ela é chamada de “Coca Cola” e, ao que parece, está comprando terras estrategicamente localizadas nessa formação para extrair prata e levar em navios clandestinos para terras distantes e patrocinar novas guerras5.

Na próxima vez que cair água dos céus, pergunte a si mesmx se é mais umx que lamenta a aguaria, ou se a chuva lhe dá coragem para se molhar. Não precisamos fazer jogos de previsões com os gráficos coloridos, basta olhar o horizonte e preparar-se para o que vem por aí.

igreja afundada

1 Um caso importante e recente a ser citado na perspectiva de vitórias populares no país é a descriminalização reconhecida internacionalmente da folha de coca – elemento considerado sagrado, medicinal e alimentício pelos nativos desde tempos ancestrais e criminalizado há 50 anos atrás pelos países desenvolvidos. Durante esse período, políticas neoliberais tentaram implantar produtos industrializados como “alternativa” usando a folha, numa tentativa de forjar um nicho de mercado que não obteve sucesso, pois implicaria em chamar o produtor como narcotraficante e o consumidor como dependente químico. A reação e as exigências recentes em frente ao governo fez com que o assunto entrasse em pauta na ONU para votação em janeiro de 2013. Dos 184 países, apenas 15 se opuseram – entre eles, EUA. Vale lembrar que para produzir a Coca Cola, nunca houve oposição alguma.

2 Parece ser uma coisa besta, mas é justamente nesses pequenos detalhes inseridos em nossa linguagem que, de tão corriqueiros, transformam grandes absurdos em algo completamente aceitável e ainda digno de repetição sem maiores questionamentos por nós mesmxs. A água não é um bem vendável (ou não deveria ser), não deveria existir esse “ramo de negócio”, deveria existir uma cooperação para fazermos uso do bem. Mesmo a água encanada e controlada pelo Estado é encarada como um serviço prestado, ou seja, você paga por todo o tratamento, rede de esgotos, funcionários, impostos diversos, eventuais serviços e o papel do boleto. A regulação desse preço vem da quantidade consumida. Não é uma defesa desse modelo, mas é chamar atenção ao fato que nem mesmo o Estado consegue deixar tão explícito a noção da água ser um produto como outros quaisquer.

3 Há de se considerar que leite materno, independente da espécie, está em suas qualidades intimamente ligado à saúde feminina. Logo, uma promoção verdadeira do significado vital da amamentação, só pode ser pensado dentro de uma amplitude que considere as condições gerais de vida de uma sociedade, cenário que não é nem de perto produzido pela empresa. A inserção de produtos industrializados que auxiliariam a formação básica de seres humanos – investimento que se deu principalmente em países Africanos, onde o leite em pó foi apresentado com imagens de mulheres enfermeiras nas embalagens, conferindo-lhes status técnico-científico – não passou de propaganda enganosa já na sua essência, considerando as condições precárias de vida das populações, agravadas justamente pelos subempregos e pela exploração ambiental, onde, não para a nossa surpresa, o pó era misturado com (adivinhe!) água contaminada. Também é preciso lembrar que aos olhos da maioria da população, veganxs estão fora de si por não beberem leite de um ser que não é nossa mãe, ou seja, a noção estapafúrdia está bem viva.

4 “As veias abertas da América Latina” – Eduardo Galeano.

5 Leia de novo! Ok, você é espertx e entendeu direitinho. Em caso de dúvida: hoje grandes corporações (a citada foi apenas um exemplo) patrocinam guerras que se desenvolvem a partir de slogans como “libertação à oprimidxs”, entre outros não tão diferentes dos usados por cavaleiros espanhóis no eterno “pecaminoso” oriente. As guerras ainda são levadas por um exército nacional e ainda matam e fazem sofrer fisicamente outros seres como nos velhos tempos, porém possuem hoje uma estratégia atualizada frente aos antigos romanos. A atualização se chama propaganda. Ela minimiza a percepção do dominado e pode ser bem doce e resfrescante.

 

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