Falência e dívidas que ficam: a política que nos aprisiona num inferno.

No debate que antecede uma semana das eleições, presenciamos uma das cenas mais tristes de todo esse período: o silêncio dos candidatos em frente à absurdos deferidos em rede nacional, sobretudo de quem se coloca como defensor de direitos de minorias.
 
Esse pequeno texto procura ainda bater o pé nessa história de crenças sobre “menos pior” e “democracia representativa”. Os tempos são sombrios e a sensação de que alguém leia o cabeçalho comece a me taxar com termos esdrúxulos desprovidos de significados se fazem presentes. Mas vamos lá!

Não é novidade a opinião do Senhor Pai de Família (vídeo de Levy Fidelix em debate presidencial). A origem dos pensamentos nos leva à um passado remoto, à níveis extremos do patriarcado como formador cultural, como definidor e regulador de um pequeno universo vivido nas fazendas escravocratas do antigo Brasil. “Implantadas numa sociedade assim estruturada, as instituições republicanas se conformaram como um simulacro de autogoverno incapaz de disfarçar o caráter efetivamente oligárquico do poder que se esconde atrás da aparatosidade democrática representativa”¹. Infelizmente, a sociedade patriarcal, com o fazendeiro patrão, pai, padrinho, protetor, chefe político e empresário, não só estigmatizou até os dias de hoje preconceitos de gênero, de raça, religioso e de comportamentos diversos, como também deixa de herança no solo a incapacidade de pensarmos um sistema onde os focos de decisões políticas consigam desvencilhar-se dos aparatos existentes para a manutenção da mesma ordem.

Estou falando da magnitude em que se aposta nos rumos do país quando enfrentamos um período eleitoral. A histeria em torno do pensamento que apertar botões numa urna decide mais coisas que construções coletivas – ou individuais, considerando sermos sujeitos ativos socialmente – durante toda uma vida, é algo que interessa para a manutenção democrática representativa ou ditatorial de poderes. A democracia, desde a Grécia Antiga, permite que apenas parcelas da população de fato participem integralmente de decisões majoritárias ou, em outras palavras, que afetam e se direcionam à todxs. A constituição do espaço/território criado historicamente vai determinar em cada sociedade quem são os personagens principais e os que estão à mercês desses. Porém, com o moderno advento do direito de voto, estampa-se a mentira que a população em geral é a dona do seu destino. Em suma, interessa muito que nunca aprendamos a organizarmos nada por nós mesmxs. A escola, a religião, televisão, publicidade, patrões e autoridades – em maior ou menor grau – estão aí justamente para dar as travas necessárias.

Deixando um pouco de lado o parágrafo acima e fazendo um esforço para crer em processos ditos democráticos, penso que quando nós temos em rede nacional uma coisa chamada “debate”, esperamos que confrontos sejam normais e que se respeite o intuito de levantar questões com vistas a criar preocupações e dar visibilidade, para que conjuntamente possamos pensar e desenvolver uma visão de sociedade onde caibam respeito e dignidade à toda a população. Não? Só eu penso assim sobre debate? Bom, não sei quanto à você que lê – talvez já esteja acostumado e conformado em como debates eleitorais se dão – mas ficou claro que NENHUM candidato pensa no mesmo intuito que coloquei aqui. Logo voltamos à isso.

Assim como o Estado foi criado para atender à demandas burguesas, os debates eleitorais de TV formam antes torcedores fanáticos do que cidadãos críticos e preparados para intervir. Inverter a ordem de ambos não me parece tarefa fácil e de boas probabilidades, pensando pacificamente na aceitação da disputa por isso. Mas as brechas existem e alguns temas podem ser falados brevemente. Sobre as lutas de minorias, o que inclui LGBT’s, enquanto um partido político se coloca como oposição às realidades presentes e problemáticas, e também como porta voz de movimentos sociais diversos em momentos específicos e definido em acordo prévio com aqueles que buscam representar, eu aceito a legitimidade; em partes. Existem questões urgentes, que podem e devem ser tratadas pelo Estado, – normalmente pela via de formulações de leis – que quando realizadas, tendem a diminuir a arbitrariedade com que ações e falas são despejadas em cima dos direitos de outrxs. É por essa via que as coisas serão resolvidas? Não. Penso que apenas novos moldes de organização social e econômico, baseados na não hierarquização de poderes, destruição da noção de propriedade e autoridade, e sobretudo em construções autônomas para as próprias decisões conjuntas ou individuais poderiam alavancar verdadeiras mudanças de mentalidade, expulsando – ou ao menos dando passos decisivos – heranças malditas impregnadas no ar. Mas isso não me permite dizer que seria inválido lutar por coisas que são urgentes – mesmo com as ressalvas de não serem efetivas – e acima de tudo empoderadoras para quem quer que sofra e necessite desses direitos estendidos. Em outras palavras, se você possui um privilégio e não aceita – ou até mesmo combate – que desprivilegiados lutem da forma que eles bem entendem para isso, você é umx otárix.

Dito isso, gostaria de investigar onde uma campanha eleitoral de quem defende mudanças reais se encaixa no que diz respeito à ser efetivo em alguma conquista. Vejam bem, não é uma pergunta pessoal a pessoas ativas nas mesmas lutas e afiliadas – ou não – à partidos concorrentes às eleições. Para resumir, a indagação é compreender porque a defesa de grupos minoritários não foi levantada com a mesma proporcionalidade como ocorreu quando uma ofensa pessoal chegou até a candidata que trouxe a pergunta para o debate, onde escutamos a resposta malcriada, autoritária e retrógrada.

O que se imagina, é que tamanho disparate poderia ter no tempo final de fala de qualquer concorrente um posicionamento claro ao clímax da noite. Pois bem, comparando à todxs que fizeram de conta não terem ouvido as resoluções saídas diretamente da medicina do século XIX, que tira o comportamento homossexual da área do “pecado” – embora as religiões façam o favor de manter aí – e passa à situação de “doente”, a candidata Luciana Genro foi a menos pior, afirmando seus compromissos com LGBT’s. O problema do “menos pior” é que essa conformação é justamente o que nos impede de enxergar outros horizontes, pois ilude como o brilho de um vidro quebrado no meio da merda. Sim, não estamos olhando para nada precioso, estamos vendo como o jogo político se desenvolve e o que está por vir a seguir se a aposta se mantiver por aí.

Vamos por partes: Houve uma afirmativa por parte da candidata do PSOL que ela pretende ganhar a eleição. Ok, eu não sei se foi um descontrole momentâneo, o que gerou os ares arrogantes ou estratégia para angariar votos nessa atitude confiante de fala. De toda forma, o que eu sinto é a desonestidade do jogo presente também na candidata “menos pior”². Mais do que isso, significa que temos uma história já escrita pela frente, uma que está fadada a repetir-se na democracia brasileira: para ganhar, concessões precisam haver, pautas precisam ir embora e mãos terão que ser apertadas. Se eu estou enganado nisso, eu gostaria muito de saber porque no tempo final de fala, a candidata não usou para rebater com força e com a mesma intensidade que no debate passado a vimos falando sobre corrupção. Gostaria de saber em qual momento seria mais propício refutar e destruir os argumentos patriarcais senão naqueles minutos finais. A resposta só não tá clara para quem prefere manter-se iludidx. A maior oposição dentro da lógica da democracia representativa está inserida no jogo como qualquer umx! Aceita-se as regras, não pede nem direito de mais uma tréplica, não se faz escândalo, não exerce praticamente nenhuma resistência ao absurdo que foi falado a poucos metros e em rede nacional; apenas usa o tempo final para angariar votos e manter o plano de campanha, como é a práxis dxs outrxs que disputam³. E isso fica muito em evidência, quando a pessoa age diferente para falar de corrupção, pois falar de corrupção, além de ser a pauta mais antiga da direita como da esquerda, é como bater em um morto. É fácil, já que corrupção é inerente ao poder, está encrustada desde que “representantes” do povo se colocaram como os escolhidos – ou os ‘votáveis’ -, obedecendo à um monte de regras que privilegiam classes e no capitalismo trabalham a favor das que tem os grandes monopólios econômicos. Nesse entendimento, falar de corrupção sem abrir essas verdades, torna-se apenas mais um engodo eleitoreiro qualquer.

Esse sistema político que permite a fala criminosa de um senhor é o mesmo sistema que se disputa e se despende quantidades absurdas de dinheiro vindo de tudo que é canto, e ainda pior: é o mesmo onde muita gente cheia de vontades – que eu quero supor que sejam verdadeiras – de mudanças, no sentido de abraçar um mundo mais plural, depositam seus esforços e recursos. Está tudo falido, mas vamos depositar nossas maiores preciosidades e esperanças aqui? Faz sentido?

Há movimentos e mudanças que ocorrem cada vez que nos organizamos para reclamar de algo ou para construir mutuamente algo. Existem mudanças em curso que não dependem somente de quem comanda uma abstração que nos fere todo dia. O Estado precisa ser questionado em sua raiz, não pelos galhos podres que vão cair antes de se alcançar o que realmente nos importa. Podemos passar a vida discutindo sobre as breves e moderadas mudanças políticas – onde é importante lembrar que muitas conquistas que se lutam anos podem ser perdidas em dias, por debaixo dos panos – , sobre a troca de personagens nas cadeiras, sobre o escândalo x ou y, a atitude daquele ou daquela, ou podemos expulsá-lo quando fortalecemos algo que não vem à legitimar o papel regulador de todos os aspectos de nossas vidas por ele.

A indignação ao fato visto em vídeo gerou polêmicas, que como sabemos, morrem rapidamente nas manchetes e redes sociais. Mas os momentos podem ser aproveitados para que formações sólidas contra afirmações que geram um ciclo de violência gratuita, ignorância e afetam diretamente a dignidade de pessoas sejam fortalecidos. Isso pode ser feito sem criações de ídolos, sem pedir permissão para um ‘superior’, sem jogar o peso nas costas de quem não pode responder. Essa política de baixo padrão nos aprisiona num inferno de poucas possibilidades no horizonte. Mas essas dívidas do funcionamento do sistema não são nossas. Que construamos algo que possamos sustentar, porque manter a aposta nisso que está aí é a pior das falências para o espírito.

———

¹ Darcy Ribeiro em “Configurações Histórico-Culturais dos Povos Americanos”.

² Menos pior se eu tivesse que escolher. Mas a minha escolha é enfraquecer o processo eleitoral e focar-me em fortalecer lutas que possam alargar o direito de escolha não entre personagens que assumem cargos, mas sobre questionamentos de existirem tais cargos. Portanto, não voto.

³ [editado posteriormente – 2 dias após a postagem original] No ultimo debate, o papel e a fala da Luciana Genro, assim como do candidato Eduardo Jorge, foram muito mais contundentes e proporcionais ao que foi dito anteriormente. Senti a necessidade desse registro, pois quero acreditar que as palavras podem ficar marcadas para quando superarmos esses verdadeiros absurdos que vivemos hoje. Também é discutível a possível reação imediata da candidata diante do susto que tomou, estou ciente disso e quero sublinhar que a crítica dura não deve recair sobre a pessoa, mas sobre manter a lógica de projetos eleitorais em curso.

Uma resposta para Falência e dívidas que ficam: a política que nos aprisiona num inferno.

  1. veganvive disse:

    Obrigado pelo texto tão completo.

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