Do costume de comer carne

Até que ponto poderíamos crer na expressão: “eu não me importo com eles (animais)”, quando damos conta que tivemos uma história de costumes voltadas para um afastamento e ocultamento dos próprios constrangimentos do “se importar”? Está implícita a contradição. O indivíduo bombardeado por tantas regras e reprimido pelas esferas sociais, toma para si o “não se importar” com outros seres como uma resposta firme de que tem um controle sobre o que lhe cai. Digo que o veganismo é uma quebra de uma atmosfera individualista e claro, especista. Não é a busca de prazeres imediatos, é a busca de um prazer maior: desconstruir o “natural”, atacar as coisas como elas são, apostar em algo novo.

O artigo que segue são fragmentos retirados do livro “O Processo Civilizador”, de Norbert Elias, e nos dá uma ideia de como produzimos mudanças psíquicas que alteram nossa vida social e moldam comportamentos.

“Fica claro que a mudança do comportamento à mesa é parte de uma transformação muito extensa por que passam sentimentos e atitudes humanas. Também se vê em que grau as forças motivadoras desse fenômeno se originam na estrutura social, na maneira em que as pessoas estão ligadas entre si. Vemos com mais clareza como círculos relativamente pequenos iniciam o movimento e como o processo, aos poucos, se transmite a segmentos maiores. Esta difusão, porém, pressupõe contatos muito específicos e, por conseguinte, uma estrutura bem definida da sociedade. Além do mais, ela certamente não poderia ter ocorrido se não houvessem sido estabelecidas para classes mais amplas, e não apenas para os círculos que criaram o modelo, condições de vida – ou, em outras palavras, uma situação social – que tornassem possível e necessária uma transformação gradual das emoções e do comportamento, um avanço no patamar do embaraço.

(…). A mudança como a carne era servida mudou consideravelmente da Idade Média até a época atual. É das mais instrutivas a curva dessa mudança. Na classe alta medieval, o animal morto ou grandes partes do mesmo eram trazidas inteiras para a mesa. Não só peixes e aves inteiras (às vezes, com as penas) mas também coelhos, cordeiros e quartos de veado aparecem na mesa, para não mencionar pedaços maiores de carne de caça, porcos e bois assados no espeto.

O animal é trinchado à mesa. Este o motivo por que os livros sobre boas maneiras repetem, até o século XVII e, às vezes, até no século XVIII, que é importante que o homem educado saiba trinchar bem.

(…) O trincho e a distribuição de carne são honras especiais. A tarefa cabe em especial ao dono da casa ou a hóspedes ilustres, a quem ele solicita que realize o trabalho. “Os jovens e os de classe inferior não devem interferir no ato de servir, mas apenas aceitar o que lhes foi entregue na sua vez”, diz a Civilité Française anônima, de 1714.

cozinha idade média
O fato de desaparecer gradualmente o costume de colocar na mesa grandes pedaços de animal para serem trinchados liga-se a muitos fatores. (…) Neste caso, também, a tendência psicológica acompanha um processo social mais amplo: hoje causaria repugnância a muitas pessoas se elas ou outras tivessem que trinchar meio novilho ou um porco à mesa ou cortar a carne de um faisão ainda adornado com suas penas. (…) Esta direção é bem clara. A partir de um padrão de sentimentos segundo o qual a vista e trincho de um animal morto à mesa eram coisas realmente agradáveis, ou pelo menos não desagradáveis, o desenvolvimento levou a outro padrão pelo qual a lembrança de que o prato de carne tem algo a ver com o sacrifício do animal é evitada a todo custo. Em muitos de nossos pratos de carne, a forma do animal é tão disfarçada e alterada pela arte de sua preparação e trincho que quando a comemos quase não nos lembramos de sua origem.

Será mostrado que as pessoas, no curso do processo civilizatório, procuram suprimir em si mesmas todas as características que julgam “animais”. De igual maneira, suprimem essas características em seus alimentos.


O ato de trinchar, conforme demonstram os exemplos, outrora constituiu parte importante da vida social da classe alta. Depois, o espetáculo passou a ser julgado crescentemente repugnante. O trincho em si não desaparece, uma vez que o animal, claro, tem que ser cortado antes de ser comido. O repugnante, porém, é removido para o fundo da vida social. Especialistas cuidam disso no açougue ou na cozinha. Repetidamente iremos ver como é característico de todo o processo que chamamos de civilização esse movimento de segregação, este ocultamento para “longe da vista” daquilo que se tornou repugnante. A curva que ocorre do trincho de grande parte do animal ou do animal inteiro, passando pelo avanço do patamar da repugnância à vista dos animais mortos, para a transferencia do trincho a enclaves especializados por trás das cenas, constitui uma típica curva civilizadora.”

Uma resposta para Do costume de comer carne

  1. “Será mostrado que as pessoas, no curso do processo civilizatório, procuram suprimir em si mesmas todas as características que julgam “animais”. De igual maneira, suprimem essas características em seus alimentos.” Nossa, eu conversava com a minha terapeuta exatamente sobre isso um tempo atrás… Mais especificamente com relação a sexo. Como o ser humano sente raiva por ser também um animal, e não a espécie escolhida por deus, à sua “imagem e semelhança”… Tanto que tenta se afastar de toda forma possível de tudo o que remeta à sua própria animalidade. E com o sexo foi feito isso. De algo que é comum a todos os animais foi tirado seu caráter de natural, tendo agora lugar definido (o quarto, em cima da cama, embaixo das cobertas, pelo escuro), momento definido (após o casamento ou dentro de um namoro monogâmico estável), por pessoas definidas (casal heterossexual), com práticas definidas (mulher de respeito não faz sexo oral e anal. Olha a polêmica que deu com a Sandy…). Eu nem me surpreenderia se as teorias conspiratórias quanto à criação das DSTs fossem verdade. Sexo é uma coisa libertária, e todo ato libertário é ameaçador…
    Enfim, acho que toda a artificialização da vida segue meio nesse rumo, de nos manter no cabresto… Esses manuaizinhos de “civilité”, ensinando essas práticas arbitrariamente definidas de coisas que são tão opostas à (nossa) natureza…

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